quarta-feira, março 14, 2007

Os blogs e a distribuição de filmes


Com a expansão de mercado gerada pelo crescimento exponencial de empresas de vendas de filmes, músicas, games e demais produtos multimídia online – a começar pela iTunes Store, número um no setor e parte do "ecossistema" de produtos mediáticos da Apple capitaneados pelo iPod – novas idéias e iniciativas surgem, muitas delas bem distantes da busca pelos mercados convencionais. O excelente blog CartoonBrew lançou, nesse sentido, um serviço de vendas de animações online batizado Cartoon Brew Films. A idéia é disponibilizar aos leitores do blog animações de todo mundo – de clássicos ausentes de coletâneas a experimentações premiadas em festivais e criativos filmes de estudantes – em formato passível de reprodução, com a qualidade necessária, em PCs, iPods e DVDs por um preço bastante atraente (no momento, US$ 2,00 por curta de animação). A seleção ainda é muito pequena, mas a proposta é promissora, servindo como norte para iniciativas semelhantes em outros setores da criação cinematográfica e também para criadores e festivais independentes pelo mundo, que poderiam divulgar e comercializar material de forma rápida, ampla e eficaz.

- http://cartoonbrewfilms.com/

Alcebiades Diniz Miguel

domingo, março 11, 2007

Rancor


A Silver Screen Collection lançou mais um clássico do cinema noir: Rancor (Crossfire, EUA, 1947), de Edward Dmytrik, o primeiro filme a abordar de maneira ficcional, logo após o Holocausto, o fenômeno do anti-semitismo. Infelizmente, o lançamento foi realizado sem cuidado, excluindo os extras que acompanham a edição americana: o excelente documentário de dez minutos Crossfire: Hate is Like a Loaded Gun, que explica como foi difícil realizar Rancor, e como o diretor quase teve sua carreira arruinada pela “caça às bruxas” no final dos anos 1940 – tanto ele quanto o produtor do filme, Adrian Scott, dois dos “Dez de Hollywood”, foram presos por desrespeito ao Congresso ao recusarem responder às questões da Comissão de Investigação sobre comunistas atuantes na indústria do cinema, sendo que Dmytryk, depois de alguns meses de prisão, decidiu colaborar, delatando os comunistas que conhecia; os comentários dos historiadores especialistas em filme noir Alain Silver e James Ursini; e trechos de uma entrevista em áudio de Dmytryk.

Além disso, como observou o sítio da 2001 Vídeo, a sinopse no rótulo do DVD Rancor da Silver Screen Collection é “totalmente incompreensível”. De fato, lê-se o seguinte na contracapa: Este é um filme “noir” incomum, pois é um dos primeiros a lidar com o tema do anti-semitismo. Detetive de Washington cansado (Robert Young) tem que adquirir ao fundo de um assassinato aparentemente motivo-necessitado, com o principal suspeito um soldado de boozy que só pode recordar vagamente os eventos da noite. A história realmente cava seus saltos de sapatos em muitos assuntos pós-guerras, como os soldados precisam de um lugar para pôr toda sua violência uma vez a guerra acabou e os outros problemas de reajustar a vida de civil. Robert Mitchum estrela como um amigo do soldado de acusado que ajuda o detetive a resolver o caso. Edward Dmytryk já tinha se estabelecido como um diretor de noir bom com Assassinato, minha doçura, fez alguns anos mais cedo. Aqui ele leva o sombrio, mundo de meia-noite de pessoas desesperadas e mergulhos indigentes e astutamente voltas isto em um veículo para a exploração de fanatismo. O resultado é um quietantemente atordoante, baixo-chave clássico. Jovem é especialmente bom como o detive e obtém ampla ajuda de Mitchum e Robert Ryan nisto bem escrito, drama atmosférico.

Essa sinopse aloprada, provavelmente traduzida do original por meio de algum programa automático de tradução, paradoxalmente reflete algo do improvisado da trama, já que o próprio filme é uma estranha tradução do romance The Brick Foxhole, do escritor e cineasta Richard Brooks. No romance original, o preconceito enfocado não é o anti-semitismo, e sim a homofobia: um homossexual convidava um soldado bêbado para passar a noite em sua casa; o soldado era seguido por dois colegas à distância, que acabavam invadindo o apartamento para participar da “festa”; no final da orgia, o homossexual era assassinado. Essa trama típica relacionada aos crimes de homofobia, pesada demais para a Hollywood dos anos 1940, foi “adaptada” para o tema do anti-semitismo, e produziu, em Rancor, situações deslocadas.

No filme, que se passa em Washington, a vítima é o intelectual judeu chamado Joseph Samuels (Sam Levene) que, certa noite, ouve sua namorada, dona de um bar, pedir-lhe que converse com o jovem soldado Arthur Mitchell (George Cooper), que ela percebe estar a deprimir-se no balcão com os colegas de quartel - Floyd Bowers (Steve Brodie), Bill Williams (Richard Benedict) e o falante insuportável Montgomery (Robert Ryan); depois, o casal decide levar o doce e sensível soldado Mitchell para jantar, separando-o dos colegas; como a mulher devia trocar de roupa, Mitchell fica a sós com Samuel; pouco depois, o apartamento é invadido pelo enciumado Montgomery e seu cumpincha Bowers, que querem participar da “festa” que imaginam estar acontecendo ali. Durante uma discussão, Montgomery revela-se um anti-semita psicopata, que acaba espancando Samuel até a morte.

Ficamos sabendo depois que Mitchell, sobre quem recai a suspeita do assassinato, já havia deixado o apartamento no momento do crime, tendo passado a noite com a femme fatale Ginny Tremaine (Gloria Grahame), que lhe lembraria sua esposa. Mas a prostituta, que empresta a chave de seu apartamento para que ele vá para lá antes dela, chega tarde ao “encontro romântico de sua vida”: Mitchell cai no sono e é despertado por um velho mentiroso compulsivo (Paul Kelly) que se diz marido, ex-marido ou amante de Ginny, movendo-se à vontade no apartamento. O estranho casal poderia ajudar a inocentar Mitchell, mas a prostituta hesita em prestar depoimento, e por fim, a confirmação do velho “marido” em nada ajuda. Esses dois personagens apenas preenchem a cota de derrotados que um filme noir deve ostentar.

Além do “assassinato sem motivo”, ou motivado pela paixão anti-semita, o outro tema do filme é o da desintegração de soldados que retornam da guerra e não conseguem readaptar-se à vida civil: imbuídos de seu heroísmo nos campos de batalha, desprezam os empregos comuns que consideram incompatíveis com o status glorioso que julgam ter conquistado, assim como os civis “covardes”, que enriqueceram enquanto eles se sacrificavam nos campos de batalha: acabam por se entregar ao vício, à vagabundagem, ao crime e à violência gratuita.

Quanto à adaptação por deslocamento do personagem homossexual para o personagem judeu, ela produz situações ambíguas: um casal judeu que convida um soldado desconhecido e deprimido para “jantar” com eles, levando-o, meio bêbado, para seu apartamento, denota um comportamento no mínimo estranho. Parece que o judeu é também homossexual ou que o casal está tramando um ménage à trois. Certamente não era essa a intenção do roteirista John Paxton. Mas a adaptação de uma trama típica de assassinato por homofobia para uma trama prototípica de um crime por anti-semitismo deixa necessariamente seqüelas que tornam o enredo desconexo, ainda mais que o argumento político é inserido num gênero fantasioso como o noir, povoado de personagens de moral duvidosa. O expediente do deslocamento tornou-se, contudo, comum em Hollywood, sobretudo com personagens “tabus” de judeus e homossexuais: outra adaptação por deslocamento ocorreu, por exemplo, no filme Clamor humano (Home of the Brave, 1949), de Mark Robson, um dos primeiros sobre o preconceito contra os negros realizado em Hollywood, adaptado da peça Home of the Brave (1945), de Arthur Laurents, que tratava do anti-semitismo, ou seja, a vítima, originalmente um personagem judeu na trama, tornava-se um personagem negro. Mais tarde, em Uma mulher diferente (That Cold Day in the Park, 1969), o diretor Robert Altman mudou o sexo do protagonista da novela homônima de Richard Miles (pseudônimo do ator Peter Miles) sobre um homossexual rico e solitário que caça um jovem num parque para viver com ele, tornando Sandy Dennis uma rica e solitária caçadora de rapazes…

Superior a Rancor, e produzido simultaneamente, permanece A luz é para todos (Gentleman’s Agreement, EUA, 1947, 118’), de Elia Kazan, que estreou poucos meses depois. O filme foi lançado em DVD pela Fox Home Entertainment, que também suprimiu na edição brasileira os extras mais relevantes do DVD americano, que incluem um comentário em áudio por Celeste Holm, June Havoc e pelo crítico de cinema Richard Schickel, o documentário AMC Backstory Episode e duas atualidades Fox Movietone da época.Geralmente considerado “o primeiro filme de Hollywood a abordar diretamente o anti-semitismo”, ele foi, na verdade, o segundo (em ordem de lançamento) a abordar o anti-semitismo após o Holocausto, com todo o peso da consciência do que essa visão deformada do mundo foi capaz de produzir, já que em A vida de Émile Zola (The Life of Emile Zola, EUA, 1937), de William Dieterle, o tema havia sido tratado em metafórica conexão com a situação contemporânea na Alemanha nazista, e em O grande ditador (The Great Dictator, 1940), de Charles Chaplin, a metáfora do anti-semitismo alemão já era a mais explícita possível.

Após o Holocausto, era tão premente a necessidade de denunciar o anti-semitismo que havia lavado àquele monstruoso evento, talvez o mais traumático da História, quanto era problemática a maneira correta de abordá-lo no cinema narrativo, geralmente associado à diversão. Embora os grandes estúdios de Hollywood pertencessem a empresários judeus, estes recusavam produzir filmes com temática “judaica”, num esforço de erradicar a imagem de imigrantes e de não afastar o público que procurava no cinema nada mais que entretenimento. Contudo, depois da guerra, os relatos sobre o Holocausto começaram a mudar o comportamento de Hollywood. Mesmo sendo metodista, conservador e republicano, Darryl Zanuck, diretor de produção da Fox, decidiu produzir um filme baseado no best-seller Gentleman’s Agreement de Laura Hobson. O roteiro foi escrito pelo judeu Moss Hart e a direção coube ao não-judeu Kazan, nascido em Istambul, de pais gregos, e que já despontava como um dos grandes diretores americanos. No filme, um jornalista cristão (Gregory Peck) é incumbido de escrever uma série de artigos sobre o anti-semitismo; procurando uma abordagem inédita, ele resolve passar-se por judeu; logo descobre o que significa ser vítima do preconceito, disseminado até mesmo entre alguns judeus, na forma do auto-ódio.

Em suas memórias, Kazan lamentou não ter podido abordar o tema com mais profundidade, mas o fato é que A luz é para todos conseguiu abalar a consciência das platéias expondo o “acordo de cavalheiros” (do título original) existente na elite americana, através do qual os judeus deveriam ser barrados de seu meio. Na época, alguns grupos judaicos opuseram-se à realização do filme, argumentando que falar de anti-semitismo acabaria provocando mais anti-semitismo. A resposta do roteirista foi criar um personagem antipático de rico industrial judeu que sustenta esse ponto de vista. O já consagrado ator John Garfield, vindo do teatro ídiche e cujo nome verdadeiro era Julius Jacob Garfinkel, aceitou seu papel secundário por julgar o tema do filme da maior importância. Premiado com três Oscars (Filme, Diretor, Atriz Coadjuvante), A luz é para todos jamais menciona o Holocausto, mas o evento está presente em cada gesto de revolta do personagem do jornalista contra o conformismo de sua namorada e a discriminação da sociedade, num apelo enérgico para que todos se transformem para que um novo Holocausto jamais possa voltar a ocorrer.

Por seu lado, apesar das situações deslocadas do roteiro adaptado para outro tipo de preconceito e da produção barata da RKO, Rancor possui qualidades, graças à criatividade de Edward Dmytryk, que investiu a maior parte do orçamento na contratação de bons atores, reduzindo ao máximo os gastos com cenários e iluminação, o que propiciou um clima sombrio que contribui para o sentido geral do filme. Como notou Marcel Martin, em A linguagem cinematográfica, a ação de Rancor desenrola-se inteiramente à noite e durante uma única noite; as lâmpadas desumanizam os semblantes e retrabalham as superfícies em manchas brilhantes ou obscuras, numa utilização brutal da luz que gera um asfixiante mal-estar. O filme já abre com o crime, visto à maneira de um teatro de sombras, projetadas na parede da sala do apartamento da vítima. Segue-se a perícia e a investigação, que culmina com a armadilha montada contra o suspeito pelo investigador Capitão Finlay (Robert Young), com a colaboração do simpático Sargento Peter Keeley (Robert Mitchum), que antes hesitara em colaborar devido ao esprit de corps. O detetive chega à conclusão de que o assassinato não foi motivado, ou seja, não teve motivo pessoal de vingança ou interesse material.

O anti-semita psicopata chega a matar possuído pelo ódio abstrato por todo e qualquer judeu: “O ódio é como uma arma”, explica o detetive com ares de sociólogo a um soldado irlandês que reluta em colaborar na caça ao criminoso; ele o convence explicando não se tratar “apenas” de uma vítima judia: amanhã poderá ser um católico irlandês ou qualquer outro membro de um grupo social eleito como objeto do ódio. No final, o suspeito cai na armadilha e tenta escapar; o investigador baleia-o na fuga, a sangue frio, e comenta sem qualquer traço de piedade sobre a morte do soldado: “Ele já estava morto e não sabia”. Indicado para o Oscar de Melhor Filme de 1947, Rancor perdeu merecidamente para A luz é para todos, que abordava o anti-semitismo de forma mais profunda e sem os rodeios maneiristas e a solução fácil e brutal de um filme noir comunista, ou seja, postulando a mudança de comportamento de cada “cidadão honesto” e não simplesmente a eliminação dos anti-semitas patológicos.

Links:

- DVD de Rancor.
- DVD de Crossfire.
- DVD de A luz é para todos.
-
DVD de Gentleman's Agreement.

Luiz Nazario

terça-feira, março 06, 2007

Cthulhu silencioso


A H.P. Lovecraft Historical Society, lançou em 2005 uma bizarra adaptação em tom de pot-pourri e utilizando a estética do cinema silencioso do crispado e convulso universo do escritor norte-americano Howard Phillips Lovecraft denominada The Call of Cthulhu. O estreante Andrew Leman assina a bizarra película fortemente inspirada no cinema expressionista alemão, o que percebe-se pela pesada maquiagem dos personagens e ampla e exagerada – caricatural seria a melhor palavra – estilização. O filme emprega o chamado "mitoscópio", mescla de técnicas diversas advindas para criação de uma "reprodução" mais ou menos perfeita de um filme dos anos 1920.

Como no cinema de Guy Maddin, temos aqui um jogo – embora bem menos perverso que o cinema criado pelo canadense – de reativação da estilização pelo viés da nostalgia. É notável que Leman e seus colaboradores tenham optado por representar o difícil universo de Lovecraft abandonando o mundo de efeitos de maquiagem e 3D, que costuma ser a escolha de diretores lovecraftianos como Guillermo Del Toro, em prol da imagem delicadamente construída pela estilização.

- Link do filme na Internet.

Alcebiades Diniz Miguel

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Monstros antigos e modernos




Acima, impressionantes imagens retiradas, respectivamente, dos tratados de Vesalius, Paré e Liceti, disponíveis no site da exposição Les Monstres à la Renaissance et à l’âge classique. Abaixo, o pôster oficial do filme O Motoqueiro Fantasma e o esboço de William Stout para O Labirinto do Fauno.




É notável a recente multiplicação dos monstros nas telas de cinema: filmes nos quais os personagens principais são seres humanos divididos por uma essência monstruosa atingem imenso sucesso. Tal sucesso algumas vezes é expresso por milionárias bilheterias – como é o caso recente do blockbuster Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider, 2007), que arrecadou em seu final de semana de estréia US$ 44,5 milhões, a melhor renda de abertura da história do cinema. Ou por sagração pela crítica especializada – como é o caso de O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno, 2006), sombria e violenta narrativa alegórica criada pelo diretor mexicano especializado em “monstros” Guillermo del Toro, que recebeu 6 indicações ao Oscar.

De qualquer forma, o persistente fascínio que o monstro tem para as massas – fascínio cuja estrutura narrativa, essência estética e conseqüência política foram dissecadas por Luiz Nazario em seu estudo Da Natureza dos Monstros – não é atual. A monstruosidade finca suas raízes em momentos ancestrais da humanidade: sua sombra surge, em cores vivas ou suaves e escondidos meio-tons, não apenas através da criação narrativa, artística e poética, mas também nos ensaios filosóficos, nos tratados teológicos, nos estudos médicos, nos projetos políticos. É essa monstruosidade difusa e encarada como objeto do universo “real” que surge na exposição Les Monstres à la Renaissance et à l’âge classique, reproduzida no site da Bibliotèque Interuniversitaire de Médecine, em Paris. As gravuras, nos tratados médicos, ultrapassam a função descritiva e surgem carregadas de significados, estigmas e sugestão. O hibridismo das criaturas alimenta-se e alimentaria longa cadeia imagética. Essa cadeia, enriquecida de outras fontes e formas, chega aos nossos dias e, a todo vapor, promete não apenas durar um tempo ainda maior mas, alimentada pelos fantasmas cotidianos que surgem da própria realidade prosaica, crescer, aumentar e multiplicar.

- Les Monstres à la Renaissance et à l’âge classique.
- Esboços de William Stout para O Labirinto do Fauno e sketchbook de Guillermo del Toro para o mesmo filme.
- Site oficial de O Motoqueiro Fantasma.

Alcebiades Diniz Miguel

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

A Lonely Sky


Dirigido por Nick Ryan, o curta A Lonely Sky aborda os dilemas de pilotos de provas tentando quebrar a barreira do som ao final dos anos 1940. O que impressiona neste filme irlandês é a criação, em seus 12 minutos, de ambientes completamente virtuais que simulam, com perfeição milimétrica, não apenas as aeronaves como os bombardeiros B-29 ou P-80, mas os ambientes secos do deserto do Mojave, no qual a ação está ambientada.
Renderizado pelo Softimage XSI, certas seqüências recordam o universo do filme Captain Sky e o Mundo do Amanhã (Captain Sky and the World of Tomorrow, 2004), mas com um grau de detalhamento e realismo impressionantes, completamente criadas via software. Assim, das 80 tomadas realizadas no filme, cerca de 60 – ou cinco minutos – foram criadas completamente em computação gráfica.O trailer e um making of do filme estão disponíveis no site oficial da produção, enquanto o curta está, desde fins de 2006, percorrendo o circuito mundial de festivais. Esperemos que chegue por aqui.

http://www.alonelysky.com/

Alcebiades Diniz Miguel

sábado, janeiro 27, 2007

Justos homenageados cinematicamente na França


Numa França recentemente abalada por uma macabra sucessão de eventos anti-semitas, mas capaz de abrigar um Museu da Schoá antes de qualquer outro país da Europa, o Presidente Jacques Chirac – o primeiro presidente francês a reconhecer a participação do Estado francês no Holocausto, com as deportações de julho de 1942 no Vel’d’Hiv – homenageou a 18 de janeiro os seus Justos – homens e mulheres que salvaram judeus do extermínio, ou tentaram fazê-lo, sob o risco das próprias vidas. À cerimônia no Panthéon compareceram mais de 30.000 pessoas. Diante da enorme afluência do público, Renaud Donnedieu de Vabres, Ministro da Cultura e da Comunicação, prolongou a abertura gratuita do Panthéon, onde o público foi convidado a descobrir a inscrição em homenagem aos Justos da França na cripta do monumento; e a instalação especialmente criada para a ocasião pela cineasta Agnès Varda no coração do edifício. O trabalho de Agnès Varda é magnífico, afirmou o Le Monde (cuja nota saiu neste link), que assim o resumiu: centenas de fotografias foram colocadas, até mesmo no chão, ou postas como livros abertos – retratos de cerca dos 2.725 Justos da França recenseados pelo Memorial Yad Vashem (o número mais alto depois da Polônia e dos Países Baixos). No meio daqueles cujos nomes estão escritos, encontravam-se rostos não identificados representando os Justos desconhecidos. Culminando o majestoso platô circular, quatro telas gigantes difundiam a cada quinze minutos dois filmes de dez minutos. De qualquer ponto em que o visitante se encontrasse sempre podia ver duas das telas, um díptico que evocava a Ocupação alemã, com suas razzias, e as fugas, e os esconderijos das crianças ameaçadas. De um lado, uma versão em preto e branco, como um filme de época; do outro, a mesma versão em cores, mas não exatamente a mesma: Agnès Varda filmou duas vezes as mesmas cenas, mas mudando os ângulos; a versão colorida possuía inserts de imagens de troncos de árvore, de pedras gastas, de portas entreabertas; ora se via numa tela o rosto de um Justo, e na outra o rosto do ator que o encarnava. Varda trabalhou com imagens-chaves (suásticas, botas, estrelas amarelas, carimbos administrativos) e sons (cães, apitos, trem), privilegiando gestos (um padre assina um certificado de batismo) e lugares (caves, celeiros, fazendas) até o fim amargo que sugere que alguns Justos foram denunciados.

Luiz Nazario

terça-feira, janeiro 23, 2007

A era de ouro da animação japonesa


A distribuidora Digital Meme anunciou um lançamento precioso para o dia 30 de abril: trata-se da caixa com 4 DVDs batizada Japanese Anime Classic Collection, com 55 animações japonesas pioneiras cobrindo um período que vai de 1928 até 1936. A caixa incluirá mesmo a narração de um benshi, uma espécie de narrador universal dos filmes silenciosos japoneses e a contribuição mais original do primeiro cinema daquele país. O DVD também trará exemplos e informações sobre os record talkies, animações apresentadas em conjunto com uma banda sonora gravada em gramofone, representando engenhosa forma de "sincronismo" de som e imagem.

O preço da caixa será de US$ 110,00, e os DVDs que a compõem poderão ser adquiridos separadamente por US$ 40,00.

Via CartoonBrew.

Alcebiades Diniz Miguel

domingo, dezembro 31, 2006

Os Olhos Sem Rosto

Em nossa última coluna de 2006 gostaríamos de destacar o lançamento em DVD do filme Os olhos sem rosto (Les Yeux sans Visage, 1960), lançado pela Magnus Opus, redescobrindo um filme desprezado pelos historiadores – Georges Sadoul nem o menciona em sua História do cinema – mas que hoje revela espantosa atualidade. A edição segue o mesmo padrão do DVD lançado em outubro de 2004 pela Criterion Collection, no formato Widescreen Anamórfico (1.66:1). Como sempre, a Magnus Opus não se preocupou em apresentar o produto como ele o merecia, ou seja: manteve no DVD o design de capa dos posteres originais franceses e americanos, que são sensacionalistas, no estilo das capas dos romances policiais dos anos 1950, com cores berrantes e redundância da imagem da mulher de olhos sem rosto, em close e corpo inteiro, fugindo ao estilo do filme; bem diferente é o novo design criado pela empresa americana, fiel ao monocromatismo da obra e sua associação com o surrealismo de Jean Cocteau e Luis Buñuel e com o expressionismo tardio dos filmes noir de Fritz Lang. Nas reproduções abaixo, podemos ver o cartaz original de lançamento do filme na França e as duas capas, da Magnus e da Criterion:



O DVD Criterion Collection inclui o curta-metragem O sangue das bestas (Le Sang des Bêtes, 1949), de Georges Franju, sobre os matadouros de Paris; uma galeria de fotos de produção e material promocional; duas entrevistas de arquivo com o cineasta; dois ensaios críticos do novelista Patrick McGrath e do escritor e historiador do cinema David Kalat; dois trailers originais. O DVD Magnus Opus inclui os mesmos materiais, com exceção dos dois ensaios críticos, exclusivos da edição americana; procura-se suprir essa falta com textos traduzidos de ensaios de Georges Franju, mas as transcrições estão lamentavelmente truncadas. Felizmente, a qualidade das cópias e da prensagem foi preservada.

Os olhos sem rosto é um filme fantástico adaptado do romance de Jean Redon pela dupla de consagrados escritores policiais Pierre Boileau e Thomas Narcejac, com a colaboração de Claude Sautet. O veterano ator Pierre Brasseur vive o Dr. Génessier, cirurgião respeitado por seus trabalhos de heteroplastia que experimenta em cães transplantar órgãos vivos como forma de prolongar a juventude. Mas ele também possui uma atividade clandestina, para a qual conta com uma ex-paciente, a estrangeira Louise (Alida Valli), da qual recuperou o rosto, parcialmente desfigurado num acidente; por gratidão, ela se transformou numa enfermeira de fidelidade canina. Na enorme villa guardada por dezenas de cães, o médico mantém sua própria filha prisioneira: dada como morta num acidente, quando o carro que o médico dirigia a toda capotou, Christiane (Edith Scob) teve o rosto queimado; afastada do contato humano e dos espelhos, retirados de todos os cômodos da villa, usando uma fina máscara branca moldada em seu rosto com buracos para os olhos intactos, a jovem vaga como um fantasma pelos corredores, arrastando uma camisola que lhe serve de armadura, sonhando com o suicídio. É para dar um novo rosto à filha única que infelicitou que o culpado doutor mergulha em operações clandestinas. Confiando cegamente no Dr. Génessier, Louise vai a Paris à cata de belas jovens para levá-las à isolada villa. Ali as jovens são dopadas para terem a pele dos rostos retirada pelo doutor em transplantes que resultam, cada vez, num novo fracasso...

Lindamente fotografado pelo veterano Eugen Schufftan, que criou os grandes efeitos especiais com espelhos de Metropolis (1927), de Fritz Lang – técnica que ficou conhecida em Hollywood como “efeito Schufftan” –, Os olhos sem rosto também evoca em suas seqüências iniciais as seqüências finais de O testamento de Dr. Mabuse (Das Testament des Dr. Mabuse, 1932), daquele mesmo diretor austríaco: na estrada escura, vazia e sinistra, um automóvel em alta velocidade deixa para trás as árvores que refulgem como fantasmáticas manchas brancas – uma homenagem de Schufftan ao colega Fritz Arno Wagner. O próprio personagem do cirurgião é mabusiano em sua dupla personalidade: de dia, no hospital, exerce suas atividades de médico dedicado e respeitado pela sociedade; à noite, em sua villa, esfola e assassina desavisadas jovens seqüestradas. A própria estultice da polícia, ao enviar uma garota para a mansão do doutor, sem saber o que ele faz no refúgio secreto, tem um quê dos filmes noir do cineasta a quem Franju dedicou o ensaio Le style Fritz Lang. Ao mesmo tempo, seu filme remete ao surrealismo francês: a violência de O cão andaluz, de Luis Buñuel, na cena da pele do rosto da jovem arrancada a fórceps; o caminhar fantasmático dos personagens de A bela e a fera, de Jean Cocteau, nas cenas em que Christiane vaga pela villa, encarnando ora a bela, ora a fera, heroína e mostro ao mesmo tempo.

Com uma brilhante trilha sonora assinada por Maurice Jarre, com sons de cravo em acordes de sinistro contentamento, desde então muito imitados em outros filmes de horror, Os olhos sem face não chega a ser um clássico do gênero; dois momentos fracos o diminuem: o primeiro, quando Christine atira-se da janela do último andar da villa, parecendo morta, os olhos fixamente abertos, para em seguida reaparecer bem viva, sem fraturas, ou explicação; o segundo, no final, quando, num arroubo de surrealismo demagógico, as pombas são libertadas de sua gaiola e os cães de suas jaulas.

A libertação dos animais é um tema caro ao surrealismo, e corresponde, em sua simbologia fatalista, ao advento da revolução segundo as normas do materialismo dialético. O tema está presente em toda a obra de Buñuel, desde as formigas e gafanhotos de O cão andaluz (Le Chien Andalou, 1929) e os escorpiões de A idade do ouro (L’âge d’or, 1931) passando pelo urso de O anjo exterminador (El ángel exterminador, 1962), até os animais que fogem do zoológico no final de O fantasma da liberdade (Le Fantôme de la Liberté, 1974). Em Os olhos sem rosto, os animais simbólicos são cães e pombas; os cães simbolizam os oprimidos que se vingam do opressor; as pombas, a paz que a heroína finalmente encontra não sucumbindo ao desespero, nem recuperando seu belo rosto, mas libertando os animais que matam ato contínuo quem os mantinha prisioneiros.

Essa libertação final é ambígua como a própria Christiane. Se o médico e sua assistente assassinam sem escrúpulos em nome da ciência, a jovem sem rosto tem interesses românticos frustrados, hesitando o tempo todo entre um desejo egoísta pela recuperação do rosto (e do namorado) e a piedade altruísta para com as vítimas imoladas em seu duvidoso benefício. Somente no final ela decide salvar a nova vitima. Christiane é bela e fera a um só tempo, e por isso sua psicologia “complexa” não comove: ela mata a enfermeira espetando (quase por inveja) um bisturi no seu pescoço (local da cicatriz da operação bem sucedida que tornou a enfermeira novamente bela), mas ao pai reserva uma morte indireta: “inocente” e “pacifista”, liberta os cães que ele mantinha presos, e que vão, naturalmente, estraçalhá-lo; este assassinato adquire o aspecto de uma “libertação dos oprimidos”, com pombas a revoar à volta da assassina.

O que permanece instigante em Os olhos sem rosto são as seqüências em que Alida Valli sai à caça de garotas, perseguindo-as da mesma maneira subreptícia, eroticamente ambígua, que será adotada pelo colecionador de borboletas Terence Stamp frente à jovem Samantha Eggar – primeira de uma série – em O colecionador (The Collector, 1965), de William Wyler.

A estranha idéia de um transplante de rosto, como se fosse possível transplantar a beleza de uma pessoa para outra, e que parecia a mais pura ficção em 1960 e até recentemente, quando o thriller fantástico A outra face (Face/Off, 1997), de John Woo, recuperou o tema, tornou-se realidade em novembro de 2005. Cirurgiões franceses realizaram o primeiro transplante parcial de rosto numa mulher de 38 anos que teve a face desfigurada depois de atacada por um cachorro: ela ganhou novo nariz, novo queixo e novos lábios. O transplante foi efetuado a partir da doação de uma mulher com morte cerebral encefálica, após autorização prévia da família, por especialistas de dois hospitais em Amiens sob a liderança dos doutores Jean-Michel Dubernard e Bernard Devauchelle. Para evitar o risco de rejeição, a paciente foi submetida a forte tratamento imunológico e recebeu infiltrações de células da medula óssea da doadora, sendo ainda informada de todos os riscos que enfrentava por tratar-se de intervenção pioneira, inclusive da possibilidade de desenvolver câncer. Este primeiro transplante parcial de rosto criou esperanças para pessoas desfiguradas por acidentes e queimaduras, mas também reacendeu antigas e nunca resolvidas questões éticas.

Uma defesa do transplante experimental na cobaia humana encontra-se no artigo “Um rosto, obra da mão”, de François Delaporte, Professor de Filosofia na Université de Picardie Jules Verne, publicado a 1º de março de 2006 no Le Monde Diplomatique, on line em http://diplo.uol.com.br/2006-03,a1283. É sintomático que ele defenda a operação arriscada pelos cirurgiões contra as dúvidas colocadas pelos que chama de “éticos” (sempre assim, entre aspas), afirmando de modo decididamente nazista: “Sabemos que vários jornais evocaram o suicídio da doadora e a tentativa de suicídio da receptora. Mesmo se essas informações fossem verdadeiras, isso não constituiria uma objeção. Muito pelo contrário. O suicídio bem-sucedido da primeira e a tentativa de suicídio da outra desencadearam imprevistos. Por um lado, aos olhos de sua família, o suicídio da doadora torna-se uma morte extremamente útil, graças às doações de órgãos... Esse transplante do rosto..., pondo um fim aos fantasmas, incentiva as doações de órgãos. Hoje, as famílias dizem espontaneamente: Pegue também o rosto” (grifos meus). No visionário filme de Georges Franju, as ações friamente conduzidas pela enfermeira Louise e pelo Dr. Génessier remetiam às “experiências” dos médicos nazistas com cobaias humanas, que historiadores revisionistas, seduzidos pelo mal absoluto, consideram como tendo feito progredir a ciência... Este subtema de Os olhos sem rosto já estava presente em O sangue das bestas.

Realizado apenas cinco anos após a liquidação dos campos de extermínio, O sangue das bestas é um documentário “poético” e repugnante sobre os abatedouros de Paris. Ao mesmo tempo, ele pode ser percebido como uma metáfora do Holocausto, mas uma metáfora insultante, dificilmente sustentável. Muito freqüentemente aquele genocídio cometido pelo Estado alemão foi apresentado como um abatedouro gigantesco, para o qual os judeus “deixaram-se conduzir como carneiros”. A metáfora retirava do evento toda sua complexidade, reduzindo a engrenagem do Holocausto ao massacre de um povo covarde, passivo, servil, incapaz de resistir; o Levante do Gueto de Varsóvia contradiz o mito, mas este é apenas o evento mais espetacular e macroscópico da resistência diária e coletiva de uma minoria perseguida em meio a populações inteiras que, com exceção das minorias politizadas, permaneceram covardes, passivas, servis e incapazes de resistir aos decretos e às ações nazistas.

Mais do que através da metáfora do abate, é por uma invisível analogia mental que se opera, em O sangue das bestas, a associação entre a realidade do abatedouro e a dos campos de extermínio. Os trens que conduzem as reses “inconscientes de seu destino”; a frieza dos açougueiros, cujos nomes são enunciados; a descrição minuciosa de seus métodos de abate; o registro das mutilações, do sangue a borbotar das feridas, do esfolamento das carcaças, do corte das patas, das decapitações, etc. – tudo evoca um massacre organizado (tal como as operações experimentais do Dr. Génessier). O filme começa de maneira singela, com registros poéticos, de evocação surrealista, com objetos espalhados num mercado de pulgas a céu aberto, para pouco a pouco mergulhar nas imagens tenebrosas da carnificina dos animais.

O cinema de propaganda sempre recorreu ao abate como uma metáfora política a serviço de algum movimento extremista ou de algum regime revolucionário. O primeiro cineasta a recorrer a essa metáfora foi Sergei Eisenstein, em A greve (Stachkam, 1924): nas imagens-choque de bois abatidos, rasgados a faca, editadas entre cenas de fuzilamentos em massa, ele fazia a ligação entre o abate das reses nos açougues e o massacre dos operários pela polícia czarista. Após essa metáfora de fundo comunista, uma metáfora semelhante foi oferecida pelo nazismo em O eterno judeu (Der Ewige Jude, 1940), de Fritz Hippler, produzido com gosto por Joseph Goebbels: após chocantes cenas de vacas agonizando com os pescoços rasgados a facão por açougueiros judeus, o público respirava aliviado com o anúncio de um decreto do Führer proibindo a vivisseção de animais. Sabemos hoje que a conseqüência direta desse pioneiro decreto ecológico foi a permissão da vivisseção de judeus, tornados cobaias humanas pelos médicos nazistas nos campos de morte.

Mais tarde, o Cinema Novo também recorreu à metáfora do abatedouro: no final de Os fuzis (1964), de Ruy Guerra, o povo, após a revolta contra soldados repressores, se engalfinhava faminto, disputando os pedaços da carne de um boi abatido e esquartejado no sertão nordestino. Finalmente, reencontramos a metáfora política do abate na parábola cinematográfica sobre a guerra do Vietnã realizada por Francis Ford Coppola: no momento mais forte de Apocalypse Now (1979) que, ao contrário do que imaginam os críticos, justifica a guerra e prega como única solução da mesma o lançamento de uma bomba atômica no Vietnã, um boi é abatido e mutilado numa cerimônia primitiva realizada no “coração das trevas”.

Nesses filmes extremistas, a metáfora do abate remete à repressão policial (de um Estado a subverter) ou política (dos “judeus”, dos “vietcongs”), como impacto para mobilizar as consciências assim abaladas na direção da “revolução das massas”. Aqueles que abatem serão abatidos, e os animais torturados (“as massas”) serão libertados dos opressores. Há, evidentemente, algo de totalitário nestas metáforas visuais do abatedouro. Mas O sangue das bestas percorre o caminho inverso da metáfora política. Aí, as imagens do abate não aludem aparentemente a nada além delas mesmas, não há edição de cenas evocativas de um universo diferente ao qual o abate se relacionaria; trata-se de um mero documentário sobre abatedouros. Contudo, na escolha deste tema para um documentário preexiste o desejo de abalar as consciências. E além desse desejo, por mais que o cineasta procure manter a narrativa num tom neutro, as imagens cada vez mais atrozes do martírio dos animais remetem, ainda que involuntariamente, aos campos de extermínio e seus horrores revelados poucos anos antes nos “filmes de atrocidades”.

O sangue das bestas não chega a ser um filme de protesto levantando a bandeira do movimento vegetariano contra os abates de cavalos, bois e carneiros, bandeira que retorna com nova roupagem, no seio dos movimentos ecológicos - e lembremos que Hitler era vegetariano. Um recente projeto que proibia a vivisseção de animais, de autoria do vereador e ator Cláudio Cavalcanti, foi vetado no Rio de Janeiro pelo Prefeito César Maia, como inconstitucional; mas inspirou o deputado estadual Palmiro Menucci a tentar, em São Paulo, a proibição do uso de animais em práticas experimentais. Os atuais ecologistas defensores da proibição do uso de animais como cobaias pelos cientistas oferecem como alternativas para os testes clínicos de novos medicamentos ou tratamentos, a “simulação em computador” ou, como a fisiologia de um animal seria diferente da nossa, o uso de pessoas doentes, que se apresentariam como voluntárias às experiências médicas, cirúrgicas e farmacêuticas: “Há tantas pessoas doentes precisando de ajuda… Muitas delas certamente gostariam de ser cobaias, porque talvez seja sua única possibilidade de cura”, declarou Nina Rosa Jacob, fundadora do Instituto Nina Rosa, que faz campanhas pelos direitos dos animais e pelo vegetarianismo (ESCOBAR, Herton. Defensores das cobaias admitem testes em pessoas. O Estado de S. Paulo, 2 jul. 2006, Caderno Vida&, p. A30).

Georges Franju não chegaria a tanto, e seu filme não deve inspirar os novos ecologistas, embora eles possam aproveitar algumas de suas cenas para fins “educativos”. Mas avesso ao movimento ecológico de fundo fascista, O sangue das bestas pertence a outro universo cultural; há nele um tom trágico que justifica tanto os rudes açougueiros que realizam, sem drama, seu terrível trabalho cotidiano, quanto o sacrifício mudo dos animais, que se deixam abater para que a humanidade carnívora possa saciar sua fome, ou seu gosto pela carne. Ao mesmo tempo, as imagens terríveis do abate cobram da humanidade o preço de sua fome ou de seu gosto pela carne: impossível, depois de ver o filme, comer um bife sem pensar em todo o horror que está por trás dele. Aludindo à violência que se oculta sob a aparência burguesa de nossa vida cotidiana, e à barbárie em que o capitalismo às vezes recai (como no Holocausto recortado pela visão comunista), o filme deixa de ser um simples documentário para tornar-se mais um manifesto extremista na tradição política do surrealismo revolucionário.


Luiz Nazario

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Aos leitores de nosso blog...

Desejamos boas festas e oferecemos o simpático cartão do encontro de Krazy Kat e Toby (via Cartoonbrew).

Alcebiades Diniz Miguel

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Propaganda soviética em DVD

Um dos lançamentos mais interessantes da coleção especial de DVDs The Walt Disney Treasures foi a edição On the Front Lines, dedicado à produção de animações de propaganda anti-nazista produzidas pelos estúdios Disney durante a Segunda Guerra Mundial. Ainda mais ousado pela amplitude do recorte temporal escolhido (dos anos 1920 aos anos 1980, período que cobre praticamente toda a vigência o regime soviético na Rússia, seguindo de perto as mutações que a variação russa da ideologia comunista sofreu durante todo esse período) é o lançamento – pela distribuidora Films By Jove, especializada em animação russa – do título Animated Soviet Propaganda.

Trata-se de uma caixa com 4 DVDs, cada um dos quais representando um segmento temático diferente (American Imperialists, Fascist Barbarians, Capitalist Sharks e Shining Future). A partir das resenhas e de algumas telas capturadas disponíveis no site da Films By Jove, podemos perceber que, apesar da mensagem ser rigorosamente estreita e caricatural, como exige-se de propagandas ideológicas de um modo geral, a parte artística prima pelo experimentalismo e pelo precioso acabamento visual, sustentando gastos gritos de guerra e palavras de ordem com um impacto dramático que, de outra forma, jamais teriam. De forma semelhante ao ocorrido no cinema, a animação soviética transcendia pela imagem as sugestões didáticas e redutoras das exigências do partido.




- Página da caixa com 4 DVDs no site da Film By Jove.
- No CartoonBrew, é possível ler excelente resenha sobre esse lançamento (em inglês).

Alcebiades Diniz Miguel

quinta-feira, outubro 05, 2006

O cinema concentrado dos posters

Publicações recentes – como a série de nove livros da Taschen Film Posters, exclusivamente dedicada ao tema dos cartazes de cinema – e uma enxurrada de camisetas e outros produtos fashion do momento destacam a importância dos posters como parte integrante do conceito de um filme, ultrapassando as funções práticas de apresentação e propaganda. Nesse sentido, o approach dos artistas do Leste Europeu – especialmente na Polônia – é notável: a partir da premissa inicial dos filmes, criam cartazes dominados por imagens fantásticas e surreais. Praticamente abandonando os tradicionais fotogramas, empregados nos posters mais usualmente, os artistas poloneses empregam técnicas variadas de ilustração e pintura para alcançar resultados extremamente agressivos (como no exemplo abaixo, o cartaz de Cabaret) ou de releitura poética muito original, mas ainda assim fiel ao espírito de cada filme.

Cabaret (Cabaré)

The Birds (Os Pássaros)

Links:

- Existem mais exemplos de posters nesta página.
- A série Film Posters está disponível na 2001 Vídeo. Os volumes são os seguintes: Film Posters Of The 30s, Film Posters Of The 40s, Film Posters Of The 50s, Film Posters Of The 60s, Film Posters Of The 70s, Film Posters Of The 80s, Film Posters - Exploitation, Film Posters - Horror, Film Posters - Science Fiction.

Alcebiades Diniz Miguel

quarta-feira, setembro 13, 2006

Semiologia de uma Imagem


Na série de imagens acima, publicadas na reportagem Lula retoca foto-símbolo da campanha, publicada na Folha de S. Paulo (10/09/06), podemos ver o Líder, “seu” Povo e “sua” Pátria, aparentemente embelezados pelo Photoshop para se transformarem no cartaz oficial da campanha de Lula. Mas até na fabricação de uma imagem, especialidade dos publicitários, os Dudas Mendonças a serviço do Poder Petista mostram-se incompetentes – até nisso! Como notaram os jornalistas Pedro Dias Leite e Eduardo Scolese, da foto original que um fotógrafo oficial da Presidência tirou a 21 de março de 2006, numa aparição de Lula no município Lauro de Freitas, na Bahia, os marqueteiros do candidato Lula apagaram a figura do chefe de segurança, general Marco Edson Gonçalves Dias; suprimiram uma mão anônima que estava em primeiro plano; limparam o céu, tirando e colocando nuvens; e varreram uma tenda branca que estragava a visão do fundo. O que os jornalistas não perceberam é que os marqueteiros não fizeram um serviço muito limpo; ao contrário, eles deixaram os dedos do general em cima do braço de Lula: na segunda versão da foto, quatro dedos cortados; na versão final do cartaz oficial da campanha, três dedos cortados (o quarto dedo, que estava levantado, foi meio que cortado, meio que fundido no braço de Lula). E, para disfarçar toda essa horrível mutilação, os “artistas” falsificadores colocaram uns respingos de tinta vermelha que acabaram, grotescamente, evocando sangue – dedos mutilados e sangrentos em cima do braço de Lula, esse ex-metalúrgico que teve um dedo mutilado! Seria uma homenagem de humor negro ao aposentado por invalidez que “trabalha duro” pelo Brasil? Não. Incompetência a toda prova. E a Folha, que deu a matéria, não percebeu! E mais: os marqueteiros do PT não apenas suprimiram o chefe de segurança como colocaram um velhinho e duas mulheres olhando sorridentes para o Lula, para completar o quadro messiânico-stalinista do candidato dito vitorioso. Por fim (e isso a Folha tampouco observou em seu furo de reportagem), os marqueteiros esqueceram, lá no meio do abraço enlevado do menino em Lula, o braço esquerdo do general:



Os “artistas” marqueteiros do PT devem ter imaginado que naquela confusão de Povo e Líder se fundindo, ninguém iria notar um braço a mais, ainda que solto no ar. Concentrando numa única imagem tanta incompetência, mentira, mutilação e horror, a imagem oficial da campanha de Lula, afixada em cartazes gigantescos em todas as praças por onde o candidato-presidente discursa, parece ser um alerta visionário, um sinal revelador. Que Deus nos proteja da materialização da catástrofe assim anunciada...

Luiz Nazario

Um novo e lucrativo mercado: vídeos pela Internet

Foi no início dos anos 1990 que se começou a mencionar a possibilidade de máquinas não-especializadas armezanarem arquivos multimídia compactados com algoritmos específicos de controle para a degradação digital – os chamados codecs. Mas seria apenas no final dos anos 1990, já no início do novo século, com o avanço inexorável da potência de processadores e da capacidade multimídia de sistemas operacionais que o compartilhamento de músicas compactadas no formato MP3 explodiu como coqueluche global. O pequeno software/serviço de distribuição Napster tornou-se, do dia para a noite, uma potência na rede mundial, enquanto gravadoras e músicos acionavam advogados para fazer valer seus direitos de propriedade intelectual. A natureza auto-devoradora do "comunismo eletrônico" que surgia com a Internet era clara: se todos os arquivos compartilhados provinham de uma "fonte" física – ou seja, houve alguém que se dispôs a comprar o produto no início dessa imensa "cadeia digestiva" – haveria um momento em que esse elemento acabaria suprimido. Empresas começaram a lançar propostas que, ao mesmo tempo, combatessem a pirataria e permitissem aos usuários a possibilidade de dispor, em formato digital, de suas músicas prediletas. Nesse momento, a Apple – fabricante dos computadores Macintosh – revolucionou o mercado, ao atrelar as compras dos arquivos digitais a um seu produto especialmente feito para representar no século XXI o que os walkmen da Sony representaram nos anos 1970-80, o iPod. O sucesso do modelo foi suficiente para que surgissem uma legião de aparatos tocadores de MP3 e serviços de venda de músicas na rede.

A expansão natural dos mercados e da tecnologia – incluindo a maior largura de banda da Internet, aumento da potência dos equipamentos, etc. – e a expansão das possibilidades de compressão para o digital com níveis de qualidade inigualáveis preparou o espaço para uma nova – e lucrativa – explosão que começa atingir os mercados globais: a venda de filmes de longa-metragem pela Internet. O prelúdio de tudo isso foi, novamente, configurado pela Apple, que vendia em seu serviço exclusivo séries de TV para iPods com capacidade de reprodução de vídeo. Pouco antes, a criação do software Bit Torrent – que descentraliza o arquivo digital compartilhado, tornando difícil seu rastreio pelas autoridades acionadas agora pelos estúdios de cinema – facilitava imensamente o download de filmes e séries inteiras com excelente qualidade e reduzidíssimas perdas advindas da compressão. Nesse mesmo período, serviços como o YouTube surgiam e, embora não tivessem qualidade suficiente, serviam para a difusão de vídeos em escala esponencial. Diante desse novo quadro, a Amazon e a Apple anunciaram suas respectivas lojas virtuais de filmes, aproveitando o nome e a experiência acumulada que ambas as empresas possuem no segmento de venda digital de produtos. Lançado dia 7 de setembro, o serviço da Amazon, batizado Amazon Unbox, oferece filmes e minisséries para venda. O modelo mimetiza o sistema da Apple: o usuário precisa baixar um player/software de download exclusivo (compatível apenas com Windows) e, se quiser reproduzir os vídeos fora do computador, precisará de um player de MP3 e vídeo concorrente do iPod como o Zen da Creative. A possibilidade de gravar DVDs com os filmes comprados é vedada. O preço dos filmes na Amazon Unbox varia bastante, mas os mais caros situam-se na média entre os US$ 10,00 a US$ 15,00.

A venda de filmes pela rebatizada iTunes Store – lançada em evento dia 12 de setembro, menos de uma semana depois do anúncio da Amazon –, da Apple, possui as mesmas limitações daquele oferecido pela Amazon: os arquivos não podem ser utilizados para gerar um DVD-video comum e estão restritos a um único aparato de reprodução (neste caso, o iPod reprodutor de vídeo) fora o computador (PCs com Windows ou Macs, no caso da iTunes Store). A Apple promete um box reprodutor de filmes sem-fio para o início de 2007, um mecanismo bem interessante que escapa um pouco da restrição dos aparelhos de reprodução caros e de telas minúsculas. No mais, os vídeos vendidos pela Apple (que especifica com clareza a resolução dos filmes, coisa que a Amazon não faz) são mais leves para baixar e possuem resolução de 640 por 480, bem próxima daquela obtida em um DVD. Além disso, o software da Apple, o iTunes, é muito bem estruturado e fácil de usar, além de estar na versão 7, correndo um risco bem menor de sofrer com bugs e panes repentinas. No quesito séries televisivas, o serviço da Apple apresenta um leque de opções bem maior que o da Amazon, incluindo séries de imenso sucesso como a recente Lost. Os preços, no serviço da Apple, são: mais ou menos US$ 10,00 por filme de longa metragem e US$ 2,00 para episódios de séries e outros shows televisivos (há descontos e promoções, evidentemente).

Ainda são poucos os estúdios apoiando essas pioneiras lojas online: alguns blockbusters da Warner, como V de Vingança (V for Vendetta, 2006) estão representados na Amazon Unbox. A Apple conseguiu atrair a Disney, Pixar, Touchstone e Miramax (todos estúdios vinculados à Disney). Por outro lado, pequenas distribuidoras e selos independentes e de arte também se arriscam no novo meio, apresentando até mais coragem, inventividade e inovação que os big players: por um curto período de tempo, a distribuidora francesa Blaq Out ofereceu o filme Le Petit voleur (1999) de Eric Zonka, no formato VOD (Video On Demand). Como se vê, apesar da potencialidade comercial, o mercado ainda é bastante incipiente. De qualquer forma, o impacto da pirataria e de outras formas de distribuição digital já atingem o mercado brasileiro: edições "especiais", "do colecionador" ou limitadas de títulos em DVD, no Brasil, ou não são lançadas ou demoram meses para sê-lo. Resta saber se a idéia aventada por Martin Scorcese – e que move muitos colecionadores – de que colecionar DVDs guarda semelhanças ao gesto do bibliófilo de colecionar livros, ainda tenha seu espaço no universo digital.

Links

- YouTube
- Creative Zen (players de vídeo compatível com o Amazon Unbox)
- Amazon Unbox
- Apple iTunes/iPod
- Serviço de venda de filmes da iTunes Store
- Blaq Out

Alcebiades Diniz Miguel

UPDATE: O iTunes Store funciona apenas em alguns países – o Brasil não é um deles – e o serviço de venda de filmes longa-metragem só está disponível, por ora, nos EUA.

terça-feira, setembro 12, 2006

NFB lança edição definitiva de Norman McLaren



Como parte das comemorações de seus 65 anos de animação, o lendário NFB (National Film Board) do Canadá lançou em DVD a coleção definitiva dos trabalhos de Norman McLaren (1911-1987), animador escocês, o primeiro a se integrar ao time da NFB, ganhador de inúmeros prêmios – entre eles o Oscar pelo melhor curta de animação com Neighbours (1952) –, criador de técnicas revolucionárias diluídas pelos canais de televisão até os dias atuais e, em síntese, um dos artistas mais extraordinários do século, cujo nome se associa à criação visual e narrativamente complexa da imagem viva que é a animação.

A caixa, batizada Master's Edition, é composta por 7 DVDs, que incluem 58 filmes de McLaren (inclusive testes e projetos inacabados), 15 documentários, entrevistas e vasto material sobre o multifacetado processo criativo de McLaren. Cerca de 38 filmes, inclusive, estão restaurados, processo que implicou em um dos principais desafios da equipe envolvida no lançamento da caixa: como restaurar, utilizando processos tecnológicos, sem trair a obra de um artista que utilizava processos criativos considerados "rudimentares" para os dias de hoje? A preocupação central foi em preservar sem destruir, em respeitar a obra e fazer o possível para não pasteurizar os "defeitos" que são, na verdade, constitutivos das técnicas que o animador empregava.

Por tudo isso, a caixa Master's Edition é obrigatória: para qualquer um que ame o cinema e também para todos que, pesquisadores ou não, entendam as possibilidades tecnológicas de restauração e preservação como necessárias, mas não como um fim em si.

Link:

- Press release da caixa Norman McLaren - Master's Edition

Alcebiades Diniz Miguel

quarta-feira, setembro 06, 2006

Novas Tecnologias Digitais: Holografia

A holografia é uma tecnologia – criada pelo físico húngaro Dennis Gabor, prêmio Nobel em 1971 – utilizada para visualizar ou projetar imagens em três dimensões. Mas atualmente, novas aplicações surgem para essa tecnologia que estava algo esquecida (seus dias de glória foram nos anos 1970). Discos ópticos baseados em tecnologia holográfica, denominados HVC (Holographic Versatile Card ) podem armazenar 30 gigabytes em mídias do tamanho de cartões de banco, com custos muito baixos, serão comercializados no final de 2006, como alternativa aos formatos moderrnos de DVD baseados em luz azul (BRDs e HD DVDs). Mesmo filmes estão planejados para lançamento nessa nova mídia.


Por outro lado, a tecnologia holográfica, mesclada à computação gráfica e animação, também pode resultar em lindas, complexas, esculturas vivas e animadas. Um exemplo foi a animação fantasmagórica da modelo Kate Moss, trabalho dirigido por Bailie Walsh com o apoio da Gainsbury and Whiting para o desfile de outono/inverno de Alexander McQueen.


Links:

- Holographic Versatile Card (HVC)
- HVC para vídeo
- Site da Gainsbury and Whiting
- Vídeo da escultura animada de Kate Moss

Alcebiades Diniz Miguel

terça-feira, agosto 01, 2006

O canto de sereia tecnológico

Desde as primeiras lanternas mágicas ou do “teatro óptico” de Emile Reynauld até modernas obras como Carros (Cars, 2006) da Pixar, inteiramente construído em complexos softwares de computação gráfica, as animações sempre surgem como a vanguarda da visualidade pura, e não é por acaso que, bem antes das plataformas digitais de edição e efeitos tomarem de assalto o cinema, animadores como Ray Harryhausen criassem magníficos efeitos visuais inteiramente baseados em animação. Sem dúvida, a tecnologia mais moderna dessa época foi utilizada nesse caso, mas seu sentido não foi transformado em fetiche do novo, em fim em si que justificasse a existência do filme – que inclui roteiro, direção, design de produção, atuação em live action ou animada etc. – quase como moldura para algum efeito visual particularmente sofisticado e impossível de realizar até um ou dois anos antes. Percebemos, assim, que não são de fato as novas tecnologias as culpadas pela perda do sentido de poesia e imaginação que havia em muitas animações do passado – todas elas realizadas com a tecnologia disponível à sua época –, mas a valorização dos produtos de animação por causa quase que unicamente delas, esquecendo que um bom filme de animação necessita de muitos outros requisitos. Nesse sentido, é curioso perceber que a arte da animação cria um campo inédito, no qual custosas, precárias e “ultrapassadas” técnicas de criação continuam a vigorar e produzir em plena era da computação gráfica, na qual muitos analistas já prognosticam mesmo o desaparecimento do ator e a transformação do cinema em catarse audiovisual derivada dos games.

Nesse sentido, ao ler algumas das recentes resenhas para as animações A casa monstro (Monster House, 2006) e O homem duplo (A Scanner Darkly, 2006), percebemos que, em pleno século XXI, a animação ainda é uma arte considerada meramente um “meio” derivado do cinema, sem autonomia, capaz apenas de produzir diversão simplória e que necessita caprichar em “doces audiovisuais” para despertar no público algum interesse. Os dois longas de animação, lançados recentemente nos EUA, utilizam de fato tecnologias de ponta: o processo de animação por captura de movimentos empregado em Monster House e a rotoscopia dinâmica de A Scanner Darkly. No primeiro momento, o crítico Mick LaSalle escreveu para o jornal San Francisco Chronicle de 21 de julho uma resenha na qual afirma que “a animação nunca conseguiu representar a face humana”, colocando que a técnica da captura de movimento permitia ver “algo novo” que superaria qualquer animação anterior, lamentando que Disney não possuísse tal recurso ao realizar Branca de Neve e Os Sete Anões (Snow White and the Seven Dwarfs, 1937). Objetivamente, a afirmação de LaSalle não estaria equivocada: os modernos processos de mockup e scanning de atores, vistos em obras como a refilmagem de King Kong (idem, 2005) criam um efeito de verossimilhança inigualável. Mas o fato é que todas as infinitas possibilidades que tais recursos colocam nas mãos de designers e animadores são aprovitadas apenas para o aumento da verossimilhança dos filmes: a essência poética, derivada de um aparato tecnologicamente muito mais simples – a arte da narrativa – se perdeu no meio do processo. Logo depois, o crítico James Lipton colocou, no programa Inside Actor’s Studios, que o processo de rotoscopia de A Scanner Darkly, no caso do ator Robert Downey Jr., era “mais efetivo que o desempenho de personagens animados”. Lipton acredita firmemente que o "realismo animado" produz como conseqüência um desempenho, no sentido da atuação dos atores, muito mais convincente que qualquer animação poderia obter. Sem dúvida, o crítico reduz duas possibilidades de expressão específicas – o cinema de live action e a animação – a um denominador único, que possuiria atributos intercambiáveis e poderia ser julgado nos mesmos termos. Para chegar a tais conclusões, o fascínio pela moderna tecnologia que permitiu a Robert Downey Jr. "transformar-se" em animação revela-se como subtexto.

No campo oposto, Jaime J. Weinman, do blog Something Old, Nothing New, afirma que a captura da performance de um ator – que chama de mera "imitação" – jamais alcançaria a expressividade e a capacidade imaginativa daquela obtida por um artista. Utiliza como comparação uma seqüência na qual Rob Scribner anima o personagem Buggs Bunny (Pernalonga), obtendo, de fato, um condensado complexo e estilizado de expressões. Pois de fato – e isso Weinman sublinha – um desenho é, em geral, bem mais sugestivo e expressivo que uma fotografia. O erro de Weinman é acreditar que a expressividade depende da técnica empregada – no caso, o desenho 2D –, e não do talento do animador, esquecendo que podemos animar e dotar de incrível expressão quadros estáticos (como já demonstrou Norman McLaren) e também fotografias. Weinman exila a animação no campo do cartoon, ao focar seu ponto de vista essencialmente no material desenhado, esquecedendo que boas obras de animação tornam expressivos bonecos de madeira, pedaços de papel, chapas de areia, a sombra de objetos, etc. As opiniões expressas em blogs como Cartoon Brew e Something Old, Nothing New repisam velhos preconceitos contra a tecnologia digital em geral – e de captura de movimentos, em particular – que animadores do universo cartoon costumam esboçar, por temer que seu espaço seja diminuído por técnicas de reprodução mimética incrivelmente precisas. O pesquisador João Victor Boechat Gomide, em sua ainda inédita dissertação de mestrado Captura Digital de Movimento no Cinema de Animação (cujo resumo o professor Luiz Nazario gentilmente nos forneceu) analisou esses preconceitos, já abertos desde a utilização da rotoscopia – técnica manual para a captura de movimento, criada pelos irmãos Fleischer – nos anos 1930 até a entrada em cena da computação gráfica e do mocap digital: muitos animadores chamavam as técnicas de captura de movimento digital de "rotoscopia do diabo", como uma anti-arte diabólica que roubaria empregos e tornaria a animação a robótica repetição de patterns captados dos atores. Portanto, desmistificando a posição anti-tecnológica de muitos animadores, as possibilidades expressivas não estariam perpetuamente associadas a uma forma de animar, mas dependem diretamente do talento do animador.

No debate todo, percebe-se que a discussão em torno da tecnologia toma rumos curiosos: de um lado, críticos e jornalistas que costumam avaliar a animação como uma espécie de "expressão menor" do cinema e esperam, justamente, novos rumos para ela, muitas vezes encarando tecnologias de ponta eventualmente empregadas como "salvação"; e os animadores, que pretendem que sua arte seja uma expressão ex nihilo que surge com a mínima intervenção de tecnologias que dominam e muitas vezes escondem, como fez Disney com a rotoscopia na animação de personagens humanos. Uma discussão nesses termos, sem dúvida, está fadada ao beco sem saída das retóricas saudosistas ou progressistas, vazias em essência. A narrativa – essencial para toda e qualquer obra fílmica – é que precisa ser redescoberta, para que o cinema volte a ser o sonho ou o pesadelo acordado único que foi no passado.

Links (em inglês)

- Resenha de Mick LaSalle
- Cartoon Brew
- Something Old, Nothing New

Alcebiades Diniz Miguel

quinta-feira, julho 20, 2006

Digitalizando Toda a Memória do Mundo

Em 1956, Alain Resnais realizou um documentário assustador sobre a Biblioteca Nacional de Paris: Toda a memória do mundo (Toute la mémoire du monde). O cineasta havia acabado de realizar outro documentário, igualmente assustador, sobre os campos de morte nazistas, Noite e brumas (Nuit et brouillard, 1955). Os dois curtas-metragens, de temas tão diversos, tinham algo em comum: eles nos faziam encarar uma realidade vertiginosa e insuportável. Os nazistas pretendiam embelezar e dominar o mundo e criaram um vasto e elaborado sistema industrial de “limpeza étnica”, que se revelou o maior horror, a maior “sujeira” da História. Ampliando o foco, o homem, em sua passagem pela Terra, quer embelezar e dominar o mundo e criou um sistema de organização de seu conhecimento, no qual mergulha como num labirinto borgiano sem saída, perdendo-se para sempre... No filme de Resnais, o prédio da Biblioteca Nacional assumia por momentos o caráter de um KZ da dimensão do campo de Auschwitz: ali estavam concentrados todos os livros publicados em séculos de história humana, ali estava contida, presa, martirizada, sufocada, “toda a memória do mundo”. E os travellings que a câmara do diretor realizava no interior desse monstruoso cérebro nervurado de estantes a perder de vista, transmitiam a vertigem do choque entre o pouco tempo que nos era dado viver e a vida infinita que seria necessária para se possuir toda essa desejada, apesar de tão dolorosa, memória do mundo.

No princípio dos anos 1970, os arautos da revolução digital vieram dar um ingênuo e arrogante “fim” a essa angústia infinita. Em 1971, precisamente, a Declaração de Independência dos Estados Unidos foi “disponibilizada” numa biblioteca de rede eletrônica. Michael Hart fundava o Projeto Gutenberg, a mais antiga fonte de e-books da Internet, de onde são baixados, gratuitamente, 2 milhões de títulos por mês. Seguindo a tendência, a World e-Book Library, que cobra US$ 8,95 por ano para acesso ilimitado ao seu banco de dados, possui 250 mil títulos de autores mortos há mais de 70 anos, cujas obras caíram, assim, em domínio público, ou de autores cujos direitos foram liberados, digitalizados. Juntando suas forças, o Projeto Gutenberg e a World e-Book Library, baseados nos Estados Unidos, mas com escritórios na Europa e Austrália, permitiram o download gratuito de 333 mil títulos durante sua primeira feira on-line, projetando um número de 1 milhão de e-books gratuitos na rede até 2009 e de 10 milhões até 2020. Se o mercado comercial de e-books fracassou em todo o mundo, cada vez mais livros eletrônicos são baixados em computadores portáteis, celulares e iPods da Internet: Para essas pessoas que cresceram jogando em GameBoys, a tela tem um tamanho padrão; para nós, veteranos, pode ser pequena; mas eles não ligam, sustenta Hart, que ainda afirma uma monstruosidade que bem deve ser verdade: Já recebi mensagens de pessoas dizendo que nunca teriam lido Shakespeare se eu não tivesse colocado na internet. [SIMÕES, EDUARDO. Evento coloca mais de 300 mil livros para download gratuito, Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, São Paulo, 4 de julho de 2006].

Também no Brasil, a digitalização da memória do mundo avança a passos gigantescos. Em 1995, através de um protocolo assinado entre autoridades portuguesas e brasileiras no âmbito da Comissão Bilateral Luso-Brasileira de Salvaguarda e Divulgação do Patrimônio Documental (COLUSO), foi criado o Projeto Resgate de Documentação Histórica Barão do Rio Branco, com o objetivo de disponibilizar documentos históricos relativos à História do Brasil existentes em arquivos de Portugal e demais países europeus. A iniciativa fundamentou-se na resolução nº. 4212, de 1974, da UNESCO, que convidou seus Estados a transferir as informações contidas nos documentos provenientes de arquivos constituídos no território de outros países ou se referindo à sua História. Coordenado desde 1996 pelo Ministério da Cultura, o Projeto Resgate envolve mais de 110 instituições públicas e privadas, brasileiras e portuguesas e mais de 100 pesquisadores, numa iniciativa sem paralelo na preservação em meio digital dos suportes documentais da memória nacional: 340 mil documentos (ou 3 milhões de páginas manuscritas) relativos a 18 capitanias da América portuguesa depositados no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa (AHU), o maior acervo de documentação colonial brasileira no exterior, foram descritos, classificados, microfilmados e digitalizados. Os arquivos estaduais receberam cópia microfilmada da documentação do passado colonial de seus estados e a Biblioteca Nacional preserva toda a coleção em microfilmes.

Associado ao projeto, existe instalado na Universidade de Brasília (UnB), desde 2003, um Centro de Memória Digital (CMD), integrado por professores e alunos de graduação e pós-graduação dos cursos de História, Letras, Engenharia de Redes, Comunicação e Ciências da Informação, com o objetivo de preservar e divulgar o patrimônio histórico documental em meio digital. Em razão da dimensão monumental, o Projeto Resgate em Conteúdo Digital pretende agregar outras instituições mantenedoras de acervos documentais interessadas em sua difusão.

O Portal Domínio Público, lançado em novembro de 2004, colocou à disposição dos usuários da Internet uma biblioteca virtual com acervo inicial de 500 títulos (hoje contém já 732 obras de literatura só em língua portuguesa). O portal permite coletar, preservar e compartilhar conhecimentos, sendo seu objetivo promover o amplo acesso às obras literárias, artísticas e científicas (textos, sons, imagens e vídeos) que caíram em domínio público ou tiveram sua divulgação autorizada. Ao disponibilizar informações e conhecimentos de forma livre e gratuita o portal também pretende, espertamente, estimular a discussão sobre as legislações relacionadas aos direitos autorais...

Finalmente, a Coleção Capes de Humanidades, constituída de 150 mil livros publicados no século XVIII (ou 33 milhões de páginas contendo obras de literatura, artes, história, geografia, ciências sociais, religião, filosofia e medicina) foi disponibilizada para a comunidade acadêmica. Obras completas de filósofos como Emmanuel Kant ou de cientistas políticos como Adam Smith, integrantes da Biblioteca Nacional Britânica, foram digitalizadas. Os livros são apresentados em inglês, francês, alemão e até latim. A presidente da Comissão Brasileira de Bibliotecas Universitárias (CBBU), Sigrid Weiss Dutra, observou que seria inviável reunir um acervo como esse de forma física.

Toda essa memória digitalizada, todo esse conhecimento “democratizado” e “disponibilizado”, todo esse oceano de informações úteis e inúteis misturadas e revolvidas, todo esse sórdido comunismo do saber parece estar esgotando a todos. Não se consegue mais simplesmente ler um livro, pois há demasiadas páginas on line para ocupar os olhos, queimados lentamente; não se consegue mais relaxar, estar em paz, gozar o prazer de levar para o quarto um bom romance, que faça o homem assolado pelas realidades justamente esquecer esse mundo. Diante de tantos textos digitalizados oferecidos ao leitor, transformado em “usuário”, aqueles que – como os heróis da maravilhosa visão futurista de Farenheit 451 (1966), de François Truffaut, inspirada na novela de Ray Bradbury, lançado em DVD pela Universal Home Vídeo –, quiserem manter sua humanidade, terão que saber, sim, manipular esses instrumentos diabólicos, fazendo suas pesquisas on line quando necessário; mas buscando, sempre que possível, salvar das chamas digitais um único e bom livro de papel, para nele se refugiar do admirável mundo novo que se descortina, voltando com prazer suas costas para a tela luminosa, irritante, barulhenta, horrorosa, torturante, do computador.

Fontes

Projeto Resgate
Centro de Memória Digital
CAPES
Portal Domínio Público
World E-Book Fair
Project Gutenberg

Filme em DVD indicado: Farenheit 451

Luiz Nazario

domingo, julho 16, 2006

Sony decreta fim de discos UMD

Os formatos proprietários, muito específicos ou focados em nichos de pouca difusão, parecem estar com os dias contados. A Sony anunciou recentemente que seu UMD (acrônimo de Universal Media Discs), direcionado para reprodução nos consoles portatéis da Sony PSP, foi cancelado. O motivo: as baixas vendas de filmes nessa mídia, que levaram estúdios como a Universal e a Paramount a cancelar o lançamento de títulos no formato. O golpe sobre a Sony foi duro: enquanto o formato de distribuição digital da Apple, através da Internet, é aplaudido por emissoras de TV, estúdios e usuários, os métodos proprietários da Sony não conseguem a mesma unanimidade. Mas a empresa japonesa não desistiu: o cancelamento do UMD abriu espaço para o lançamento de outro formato, o Memory Stick Entertainment Packs (MSEP). O MSEP nada mais é que os cartões de armazenamento da Sony (os Memory Sticks) usados para distribuir filmes de um catálogo limitado e nada interessante (os primeiros lançamentos são Hitch, S.W.A.T., The Grudge e XXX: State of the Union), em resolução menor que a dos UMDs e com preços abusivos. A lição dos UMDs ainda não foi absorvida...

Via Real Tech News (em inglês).

Alcebiades Diniz Miguel