segunda-feira, junho 16, 2008

O Rápido Desaparecimento de Títulos no Brasil

Uma má notícia para produtores, comerciantes, locadores e colecionadores de DVD no Brasil: após a primeira tiragem esgotada de um título lançado, este tende a desaparecer do nosso mercado, sendo retirado dos catálogos das distribuidoras e dos sites das lojas. Segundo Fred Botelho, da 2001 Vídeo, é assustador o número de filmes lançados que, a cada semana, caem na lista dos “fora de catálogo”.

Alguns títulos apresentam descontinuidade em conseqüência da perda dos direitos autorais, mas a maioria dos títulos de filmes em DVD sai de catálogo por não ser mais vantajoso para as empresas produzir deles uma nova tiragem depois de esgotada a primeira, sendo que a venda dos mesmos, muito lenta, não compensa a empreitada.

Um dos grandes fatores que fazem a venda de DVDs no Brasil mais difícil que em outros países é a descarada pirataria, que se espalha de alto a baixo na sociedade brasileira, cada vez mais tolerante com um crime do qual ela pensa beneficiar-se. A velha característica do brasileiro, como personagem que quer “levar vantagem em tudo”, sustenta, ao lado do desemprego em massa, que leva centenas de milhares de desocupados a entrar no “ramo da pirataria”, o progressivo desaparecimento do mercado legal do DVD no Brasil.

Comprar um título no camelô da esquina pode ser um “bom negócio” para o consumidor imediatista, sendo o preço de um DVD pirata até dez vezes menor que nas lojas. Mas o consumidor que pensa, assim, estar economizando seu suado dinheirinho, contribui para minar o mercado de DVDs tornando o comércio do produto cada vez menos lucrativo e, portanto, cada vez menos interessante para produtores e lojistas. Nesse ciclo vicioso, além dos produtores, distribuidores e comerciantes, os próprios consumidores acabam também prejudicados, ao ver escassear os novos lançamentos, logo não encontrando mais no mercado filmes importantes que, esgotada a primeira tiragem, deixam de ser reeditados.

Finalmente, a longo prazo, os DVDs dos melhores filmes (as obras-primas do cinema mudo, os grandes clássicos dos anos de 1930-1950, os filmes modernos de arte e de ensaio), com vendas mais lentas, acabam sendo os mais vitimados: deixam de ser lançados ou relançados no mercado, já que apenas os blockbusters conseguem superar as perdas gigantescas que o mercado legal sofre anualmente com a pirataria.

A título de exemplo, veja-se logo abaixo uma lista dos títulos de filmes em DVD que já se encontram fora de catálogo e que, segundo as distribuidoras, não serão mais produzidos no Brasil. Compilada por Rafael Villa (2001 Vídeo), a lista refere-se apenas ao período de março-junho de 2008. Ela inclui, além de filmes de pouco interesse, obras de arte como Alemanha, ano zero, de Roberto Rossellini; Noite e neblina, de Alain Resnais; Ensaio de um crime, de Luis Buñuel; Os boas-vidas, de Federico Fellini; Um filme falado, de Manoel de Oliveira; clássicos como Do mundo nada se leva, de Frank Capra; A ponte do Rio Kwai, de David Lean; De repente, no último verão, de Joseph Mankiewicz; coleções importantes como a Trilogia do Silêncio, de Ingmar Bergman, ou a Trilogia da Guerra, de Andrzej Wajda; caixas de Joan Crawford e de Katharine Hepburn, de John Wayne e de Stanley Kubrick; edições especiais como a de aniversário de Bonequinha de luxo, de Blake Edwards; ou a edição tripla de Assim caminha a humanidade, de George Stevens...

Procurando sempre mais por menos, sem preocupar-se minimamente com a qualidade do produto que está a adquirir, o consumidor brasileiro, tão imediatista, tão esperto, tão amoral, chafurda cada vez mais na sua própria ignorância, permanecendo um consumidor de produtos falsificados, ilegais, de baixa qualidade, que refletem e, ao mesmo tempo, reproduzem sua cultura massificada, sua sociedade indiferente, sua vida oca.

TÍTULOS FORA DE CATÁLOGO

DISTRIBUIDORA

100 homens e uma garota

Classicline

A agenda

Imagem

A cartomante

Califórnia

A ceia dos acusados

Warner

A comédia da vida privada

Som Livre

A compadecida

A conspiração

Europa

A criança

Imovision

A dama de honra

Imagem

A Dama e o Vagabundo – Edição Especial

Walt Disney

A Dama e o Vagabundo II - As Aventuras de Banzé

Walt Disney

A família Addams 2

Paramount

A história do futebol - um jogo mágico (DVD duplo)

NBO

A hora do rush

Warner

A importância de ser honesto

NBO

A lagoa azul - Edição Especial

Sony

A máscara de Satã

London

A nova fúria do Dragão

Sony

A outra história americana

Warner

A pervertida

Paris

A ponte do Rio Kwai

Sony

A revolução dos bichos

Flashstar

A roda da fortuna (1953) (DVD duplo)

Warner

A sangue frio (1967)

Sony

A sentinela dos malditos

London

A Sombra e a Escuridão

Paramount

A teia de chocolate

Warner

A Trilogia do Silêncio

Versátil

A voz do coração

Aconteceu no Natal do Mickey

Walt Disney

Adeus à inocência

Paramount

Alemanha ano zero

Versátil

Alice no País das Maravilhas - Edição Especial

Walt Disney

Altos sonhos de Cheech E Chong

Sony

Amor na tarde

Warner

Amores parisienses

Casablanca

An Official Tribute to Senna

Emi

Andrzej Wajda: Trilogia da Guerra

Aurora

Animal Planet - Chimpanzés do Congo - O caminho para liberdade

Playarte

Anita não perde a chance

Warner

Antes e depois

Walt Disney

As loucas aventuras de Rabbi e Jacob

Versátil

As sandálias do pescador

Warner

As três máscaras do Terror

London

Assim caminha a humanidade – Edição Especial (DVD triplo)

Warner

Bambi (DVD duplo)

Walt Disney

Barrabás

Sony

Batman – Edição Especial (DVD duplo)

Warner

Batman - O Retorno - Edição Especial (DVD duplo)

Warner

Batman & Robin – Edição Especial (DVD duplo)

Warner

Batman eternamente – Edição Especial (DVD duplo)

Warner

Bellini e a Esfinge

Imagem

Betty Fisher e Outras Historias

Warner

Bola pra frente

Warner

Bom dia, tristeza

Sony

Bonanza Vol.4

Classicline

Bonequinha de luxo – Edição de Aniversário

Paramount

Brava gente - Romance

Som Livre

Bubble

Paris

Bufalo bill (1976)

Califórnia

Cafundó

Paris

Caminho sem volta

Imagem

Campeão

Imagem

Carlota Joaquina - Princesa do Brasil

Europa

Carmen de Godard

Aurora

Carmilla - A vampira de Karnstein

London

Carta de uma desconhecida

Versátil

Casablanca – Edição Especial Deluxe (DVD duplo)

Warner

Casanova 70

Versátil

Cegos, surdos e loucos

Sony

Chaga de fogo

Paramount

Cinderela

Walt Disney

Cinderela 3 - Uma volta no tempo

Walt Disney

Clube dos pervertidos

Playarte

Cócegas

Emi

Cocoricó - 28 sucessos musicais (DVD + CD)

Log On

Cocoricó - Alípio em: Meu Querido Paiol

Log On

Cocoricó - Asfalto vitamina tutti-frutti

Log On

Cocoricó - Baú do Faz-de-Conta (DVD duplo)

Log On

Cocoricó - Clipes 2

Log On

Cocoricó – Cooperação e atitude

Log On

Cocoricó - diferenças e costumes

Log On

Cocoricó - Júlio em: Nos Dias Quentes de Verão

Log On

Cocoricó - Perigos na floresta

Log On

Cocoricó - Saúde e meio ambiente

Log On

Colcha de Retalhos

Universal

Coleção a câmara 36 de Shaolin

China

Coleção Agatha Christie

Warner

Coleção American Graffiti

Universal

Coleção Bernardo Bertolucci

Versátil

Coleção Chico Buarque - Vol. 1

Emi

Coleção Desejo de matar

Sony

Coleção Discovery - Dino Planet

True Tech

Coleção Discovery - Mega Construções

True Tech

Coleção Discovery - Mistérios da Fé

True Tech

Coleção Duna

Versátil

Coleção Elvis

Warner

Coleção Gângsteres - Vol. 1

Warner

Coleção Gângsteres - Vol. 2

Warner

Coleção II Guerra Mundial

Paramount

Coleção Joan Crawford

Warner

Coleção John Wayne (Warner/Inéditos)

Warner

Coleção Katharine Hepburn

Warner

Coleção NBA

Warner

Coleção Stanley Kubrick Vol. 1

Warner

Coleção Zé Carioca – Edição Comemorativa

Walt Disney

Concorrência desleal

Warner

Coração valente – Edição simples

Fox

Cowboy do espaço

Paramount

Crazy People

Paramount

Crimes de paixão

Continental

Crônica de um amor louco

Versátil

De repente, no último verão

Sony

De volta para o presente

Warner

Desde que Otar partiu

Europa

Desejo de matar 1 e 2

Sony

Deu a louca no mundo

Deuses e Generais (DVD duplo)

Warner

Discovery - Dino Planet - A jornada de Tip / As aventuras de Pop

True Tech

Discovery - Dino Planet - Das, o caçador / O ovo de Alpha

True Tech

Discovery - Mega Construções - O arranha-céu de Tóquio / O túnel transatlântico

True Tech

Discovery - Mega Construções - Pirâmide Urbana / O Novo Canal do Panamá

True Tech

Discovery - Mega Construções - Ponte sobre o Estreito de Bering / Barreira Contra o Mar

True Tech

Discovery - O Mistério do Santo Sudário

True Tech

Discovery - Testemunha Ocular de Jesus

True Tech

Discovery Channel: Imponentes elefantes gigantes temperamentais

Playarte

Do mundo nada se leva

Sony

DOCTV - Hermógenes - Deus me livre de ser normal (DVD-R)

Log On

DOCTV - Preto contra branco (DVD-R)

Log On

DOCTV - Quilombos Maranhenses: Cultura e Política (DVD-R)

Log On

Dois tiras fora de ordem

Paris

Drácula - O príncipe das trevas (1966)

London

Duna - Versão original widescreen

Versátil

Elis

Emi

Elis Regina - Especial 60 anos

Trama

Embriagado de amor (DVD duplo)

Sony

Emma

Europa

Ensaio de um crime

Versátil

Epidemia de zumbis

London

Esposas em conflito

Paramount

Estamira - Edição Especial (DVD duplo)

Europa

Europa

Platina

Face a face com o inimigo

Spectra

Fantástico 30 anos - Grandes reportagens (DVD duplo)

Som Livre

Favela rising

Paris

Festa da família

Versátil

Fifa fever (DVD duplo)

Focus

Filhas do vento

Paris

Filhos do silêncio

Paramount

Fim de caso

Sony

Fullmetal Alchemist Box.2

Focus

Fúria de leões

China

Geração roubada

Imagem

Gilbert Grape - Aprendiz de sonhador

NBO

Glauber o filme

Paris

Grandes esperanças (1946)

NBO

Great Composers Vol. 1.2 e 3

ST2

Guantanamera

Spectra

Hammy totalmente irado + Madagascar

Paramount

Harém

Classicline

Harry Potter - Anos 1 - 2 - 3 - 4 – Edição Especial (4 DVDs)

Warner

Harry Potter - Anos 1 - 2 - 3 - 4 - Edição Premium (8 DVDs)

Warner

He-Man Box 1

Focus

Henrique V (1944)

NBO

Highlander: A batalha final

Imagem

Hiroshima meu amor

Aurora

Hoje é dia de Maria

Som Livre

Homem-Aranha (DVD duplo)

Sony

Homem-Aranha 2 (DVD duplo)

Sony

IMAX - Destino no espaço

Warner

IMAX - Estação Espacial Internacional

Warner

IMAX - Galápagos

Warner

IMAX - Mission To Mir

Warner

IMAX - Montanha dos gorilas

Warner

IMAX - Nas profundezas do Pacífico

Warner

IMAX - Planeta azul

Warner

IMAX - T-Rex - A era dos dinossauros

Warner

IMAX - Uma aventura no espaço

Warner

IMAX - Uma ilha viva

Warner

IMAX - Viagem cósmica

Warner

Incidente em Antares

Som Livre

Indochina

NBO

Jacques Cousteau – Explorações fluviais

Warner

Jogos & trapaças

Warner

Jogos, trapaças e dois canos fumegantes

Sony

Jorge, um brasileiro

Paramount

Jornada da alma

Paris

Jovem e inocente

NBO

Juarez

Classicline

Kolya

Editora Europa

Kung Fu - 2ª Temporada

Warner

La Bamba

Sony

Lá vem história - Com Bia Bedran

Log On

Lois & Clark - As novas aventuras do Superman - 3ª Temporada

Warner

Longe do Paraíso

Casablanca

Lua de Fel

Spectra

Luxúria

Imagem

Luxúria de vampiros

London

Maleta Blade Runner

Warner

Maria Antonieta

Sony

Memphis Belle - A fortaleza voadora

Warner

Meninos do Brasil

NBO

Minha adorável lavanderia

Platina

Mondovino

Videofilmes

Monella, a travessa

Paris

Mr. Jones

Sony

Mulher Maravilha - 3ª Temporada

Warner

Na hora da zona morta

Spectra

NG - Por dentro do Vaticano

Playarte

Noite e neblina

Aurora

O abominável Dr.Phibes.

Playarte

O amante da guerra

Sony

O assalto ao trem pagador

O buraco negro

Walt Disney

O castelo maldito

London

O conde Drácula

London

O confronto

Sony

O corruptor

Warner

O criador

Europa

O deserto vermelho

Versátil

O destino bate à sua porta (1946)

Warner

O espírito do mal

London

O expresso de Marrakesh

Warner

O homem de palha

London

O homem do sul

Platina

O lavador de almas

Imagem

O maior de todos

Sony


Luiz Nazario

sexta-feira, junho 13, 2008

A Perturbadora Fotografia de Alexey Titarenko

A aposta que, em geral, se faz em torno da fotografia é a da representação mimética mais imediata à natureza do objeto representado. A intervenção fantástica, em fotografia, costuma ser vista como algo restrito ao mundo, hoje pasteurizado pela tecnologia digital massificada, da fotomontagem. Contudo, a fotografia pura pode representar/criar universos fantásticos com efeitos simples (enquadramento, exposição, etc.) mas bem estruturados, como bem demonstram as imagens de uma Paris perturbadoramente deserta nas fotografias de Atget ou o universo em tons cinza pesadamente granulados de Sudek.

Retomando essa tradição, o fotógrafo russo Alexey Titarenko cria todo um universo de pesadelo apenas pelo uso de longas exposições para a captura de suas imagens. Com a luz penentrando por mais tempo no filme e a impossibilidade de fixação dos fluxos de pessoas que passam pela lente de sua câmera, a fotografia de Titarenko retira o universo urbano de sua trivialidade cotidiana em figurações infernais e apocalípticas. Basta ver, por exemplo, as imagens da Venice Series, que poderiam ser traduções fotográficas do filme Inverno de Sangue em Veneza (Don't Look Now, 1973) de Nicholas Roeg.


Já a série City of Shadows apresenta imagens ainda mais contundentes, nas quais a população de São Petesburgo surge como uma maré enegrecida e infernal. Quando um rosto chega a ser captado, seus traços distorcidos pela luz excessiva acentuam o caráter de pesadelo do universo ao redor.


- Portfólio digital de Alexey Titarenko.

Alcebiades Diniz Miguel

quarta-feira, junho 11, 2008

Redescoberta de um Pioneiro da Fotografia Colorida



Na primeira década do século XX, o banqueiro, filantropo e internacionalista francês Albert Kahn deu início a um ambicioso projeto: criar processo de revelação fotográfico colorido que fosse mais simples que os complexos processos de colorização empregados à época. A meta de Kahn era utilizar a fotografia colorida como registro realista dos povos do mundo, registro esse que serviria para superar as diferenças e promover o congraçamento dos povos através da arte mediada pela técnica. Trata-se de uma messiânica tentativa de superação do caos babélico através da fascinante representação direta da realidade cotidiana que é a fotografia, muito próxima da concepção de um D. W. Griffith, que imaginava ser o cinema silencioso a ferramenta decisiva para superar a universal barreira nacionalista ao oferecer ao mundo um produto estético de infinita sofisticação e que dialogava com todos os povos da Terra.

Kahn enviou fotógrafos para mais de 50 países, registrando em primeira mão as mais diversas peculiaridades culturais de uma época condenada pelas catastróficas guerras mundiais, milagres econômicos e globalizações. Os primeiros registros fotográficos coloridos conhecidos de países como Brasil, Noruega e Mongólia devem-se aos esforços de Kahn e de seus colaboradores. Contudo, o utópico projeto não sobreviveu à crise ocasionada pelo Crack na bolsa de valores de Nova Iorque em 1929; a morte de Albert Kahn, em 1940, encerraria definitivamente o projeto e a popularização da técnica por ele criada, os autocromos.

Vendo, nos dias de hoje, as fotografias do acervo de Kahn, percebemos a delicadeza possível das cores na fotografia, uma delicadeza em tudo oposta às modernas tendências de cromatismo agressivo visando um "realismo" total na captura do instantâneo. Nos autocromos, percebemos o ruído, a distorção cromática como que de uma foto preto e branca colorizada posteriormente. Talvez por causa disso, as cores pareçam suaves – como que saídas da paleta de um pintor impressionista ou pontilhista –, desmaiadas e artificiais como em um antigo filme em technicolor.

A fascinante vida de Albert Kahn, bem como sua imensa coleção de autocromos – cerca de 72000 –, antes na sombra, foram trazidos novamente ao primeiro plano com o lançamento de uma série de televisão e de um livro, ambos da BBC. Com curatoria de David Okuefuna, o projeto The Woderful World of Albert Kahn oferece um mergulho no universo dos autocromos e de seu criador, personagem complexo e pouco conhecido na história do audiovisual.

Mais autocromos podem ser vistos neste site.

Alcebiades Diniz Miguel

segunda-feira, maio 26, 2008

Fantasmagorie 2008


Em 17 de agosto de 1908, a arte da animação surgia com Fantasmagorie, pequeno (dois minutos) filme realizado pelo cartunista e caricaturista Émile Cohl. Evidentemente, as raízes da animação são mais profundas e bem mais recuadas no tempo, das fantasmagorias originais do início do século XIX ao Teatro Óptico de Reynaud. Mas, como produto do novo universo criado pelos irmãos Lumiére, o experimento de Cohl, um fluxo da consciência em forma de animação composta por 700 desenhos extremamente simples em dupla exposição, pode ser considerado o inaugurador da longa geração de animações cinematográficas. Os traços simplificados e a quase inexistência de uma estrutura narrativa são compensados pelas velozes transições de forma do personagem central, em suas peripécias. Essa liberdade imaginativa antecipa não apenas a arte mais elaborada de um Winsor McCay, mas também a fluidez dos personagens e das narrativas dos cartoons clássicos de Tex Avery e Chuck Jones.

Em comemoração aos 100 anos do filme animado de Cohl, Rastko Ciric, acadêmico da Universidade de Artes de Belgrado, criou uma pequena homenagem animada, batizada Fantasmagorie 2008. Aproximando-se do espírito da animação original, o 3D empregado na animação de Ciric é simplificado: formas em aramado verde. A história segue passo a passo a "trama" original, com algumas invenções novas e modernizações. Mesmo assim, trata-se de uma singela homenagem ao espírito e inventividade de uma época.

O filme encontra-se disponível, na íntegra, no site oficial Fantasmagorie2008.com e será exibido nos festivais de Hiroshima e no Nitrate Film Festival em Belgrado.

Alcebiades Diniz Miguel

quinta-feira, abril 17, 2008

Visionário Anime Finalmente Lançado no Brasil



Desde Metropolis (idem, 1928), de Fritz Lang, a vocação visionária da ficção científica no cinema centrou-se no apocalipse de grandes, sinistras, decadentes e corrompidas cidades, nas quais a tecnologia contribui decisivamente para a universalização da barbárie. Nessa mesma tradição, Blade Runner, o Caçador de Andróides (Blade Runner, 1982) e o recente Eu sou a Lenda (I am Legend, 2007), de Francis Lawrence, retrabalham visual e narrativamente o tema, oferecendo a visão fascinante de cidades futuristas tão devastadas quanto seus habitantes. Nesse sentido, não é exagerado afirmar que o animador e quadrinista japonês Katsuhiro Otomo tenha a consciência apocalíptica mais clara dentro no cinema dos dias de hoje. toda sua obra baseia-se na visão da destruição em tom superlativo: não é por acaso que em sua refilmagem muito pessoal de Metropolis, filme infelizmente prejudicado pela estereotipada narrativa derivada da tradição dos mangás, a melhor seqüência seja a da destruição da torre central da cidade, evocação/reconstrução da torre imaginada pela cenografia expressionista no filme de Lang, ao som de "I Can't Stop Loving You" de Ray Charles.

Nesse sentido, a obra-prima de Otomo é a animação Akira (idem, 1988), adaptação animada de uma série de mangás escritos e desenhados pelo próprio Otomo. Obra de produção intrincada - consistindo de 2212 tomadas a partir de 160.000 desenhos, uma quantidade 2 a 3 vezes maior que a usual, usando 327 cores diferentes sendo que mais de 50 delas foram criadas especialmente para o filme - foi a mais cara animação produzida no Japão até então. O resultado é uma sucessão de imagens que se gravam na retina pela força de seu impacto, desde as perseguições de moto até a apocalíptica destruição de NeoTokyo, cidade surgida dos destroços da antiga Tóquio e destinada a uma nova devastação. A movimentada trama, centrada nas lutas entre gangues e grupos políticos em torno de um poderoso grupo de paranormais criados para serem armas vivas nas mãos de organizações militares - derivada do universo de Brian de Palma e David Cronenberg - alcança os limites do delírio graças ao traço de Otomo, superior ao estilo tradicional dos animês, e à sua cuidadosa direção. Akira revelou ao grande público os estilos típicos de animação e quadrinhos de massa no Oriente, os mangás e animês de temática adulta, que logo chegariam à televisão. Filmes de ficção científica como a trilogia Matrix teriam forte inspiração no imaginário de Otomo. Não por acaso, a Warner já anunciou uma refilmagem live action de Akira a ser lançada como dois longas-metragens, superprodução que será dirigida pelo estreante Ruairi Robinson.

A edição brasileira do DVD, da Focus Filmes, está calcada na edição norte-americana da Geneon/Pioneer. Trata-se da versão restaurada, lançada em 2001, que custou cerca de US$ 1 milhão, resgatando o universo apocalíptico de Otomo de forma suntuosa. É possível encontrar outras animações desse criador japonês fora de catálogo no Brasil em lojas virtuais: Memories (idem, 1995), coletânea de três curtas animados apresentada por Otomo, que dirige um deles (os outros dois são dirigidos por Koji Morimoto e Tensai Okamura). Trata-se de uma pequena obra-prima da animação, que merecia ser relançada junto com Akira (a versão americana, que não está esgotada, pode ser adquirida na Amazon).

quinta-feira, abril 10, 2008

O monstro da Disney


Recentemente, o blog Monster Brains trouxe rico material visual sobre a composição do monstro para o filme Planeta Proibido (Forbidden Planet, 1956), dirigido por Fred M. Wilcox. Nessa ficção científica que emprega elementos derivados da peça A tempestade , de William Shakespeare, uma equipe de resgate, enviada ao ignoto planeta Altair IV com a missão de obter informações sobre a desaparecida expedição Bellerophon, encontra o Dr. Edward Morbius e sua filha, Altaira, além de um terrível monstro completamente invisível a não ser nos momentos em que se choca, em sua fúria, com uma cerca eletrificada. A intrigante trama tornar-se-ia lugar-comum de muitos filmes posteriores de ficção científica, enquanto as aparições do monstro surpreendem pela originalidade e pela forte carga simbólica de uma criatura de design tão simples. A MGM, produtora responsável pelo filme, contratou para criar o monstro um dos chefes de animação da Disney, Joshua Meador e uma equipe completa de animação - a primeira vez que a Disney permitia que seus animadores fossem contratados por outro estúdio. O resultado visual é impressionante, pois há desde o design futurista mas weird de robôs e maquinaria até intensas e complexas mesclas de animação e filme em diversos momentos da trama. Contudo, as aparições do misterioso monstro ocupam, nesse sentido, um lugar especial.

Meador e sua equipe utilizaram um novo approach para animar seu monstro: ao invés de desenharem, seguindo a técnica usual, a criatura em folhas de acetato transparentes que seriam projetadas contra um fundo, e animadas, optaram por desenhá-la em grafite, quadro a quadro, em papel. Cada um dos desenhos, posteriormente, era fotografado com filmes de altíssimo contraste. A imagem negativa capturada foi então utilizada para composição por sobre o positivo original do filme. O resultado ainda é assustador e sugestivo: o monstro é instável e imaterial, mas feroz e disforme, a materialização perfeita de instintos violentos e primitivos reprimidos. Abaixo, podemos ver algumas das imagens originais utilizadas para sua criação do monstro:


A poderosa sugestão que a criatura despertava em seu formato minimalista não deixaria indiferentes outros designers que tentaram atualizar a proposta com elementos medonhos ainda mais incisivos ou naturalizar a imagem com elementos realistas e concretos. Abaixo, temos respectivamente uma suposta arte para a refilmagem de Forbbiden Planet e a tentativa do designer Tony McVey de dotar a criatura de um aspecto mais concreto e anatomicamente correto:


Nota: Forbbiden Planet é um filme que ainda não foi lançado no Brasil, mas a excelente edição dupla lançada nos EUA pode ser adquirida pela Amazon.

Alcebiades Diniz Miguel

sábado, março 29, 2008

A Pequena Vendedora de Fósforos


Em 2005, a Walt Disney Feature Animation concluiu a produção de uma nova adaptação do conto de Hans Christian Anderson: A pequena vendedora de fósforos (The Little Matchgirl), de Roger Allers e Don Hahn, um curta-metragem de sete minutos, que deveria integrar a coletânea Fantasia 2006. Mas o projeto foi cancelado e A pequena vendedora de fósforos foi finalizado à parte, sem qualquer chance de distribuição mundial nos cinemas, apesar de indicado ao Oscar de melhor curta-metragem de animação em 2007. A única possibilidade de vê-lo é adquirindo a edição de 2006 (a norte-americana Platinum Edition; a brasileira Edição Especial) do DVD do longa-metragem A pequena sereia (The Little Mermaid), também baseado num conto de Anderson, e no qual A pequena vendedora de fósforos é oferecido como bônus.

À diferença da maioria das adaptações para o cinema dos trágicos contos de Anderson, A pequena vendedora de fósforos conserva seu final infeliz. A história passada originalmente num dia de inverno na Dinamarca é transposta para a Rússia czarista, quando uma menina pobre tenta em vão vender seus fósforos. Se no conto a menina tem um pai que a espera em casa e no qual ela pensa com temor, no filme ela parece ser uma órfã, sem teto, sem comida, menor abandonada que acende, à noite, na tentativa de aquecer-se num beco escuro da gelada metrópole russa, os palitos de fósforo que não conseguiu vender. A cada palito riscado, uma imagem de felicidade a envolve, mas para apagar-se assim que o fogo o consome. Ela sonha com jantares suntuosos com pastéis, assados e doces; com sua avó carinhosa a acolhê-la numa dacha com porta de madeira pintada de motivos florais; com uma árvore de Natal prometendo-lhe as maiores alegrias infantis. Mas ao consumir-se seu último fósforo, a pequena vendedora morre de frio, de fome e de solidão.

O diretor Roger Allers, em breve depoimento no DVD, declarou que, quando criança, nunca conseguia chegar ao fim do conto de Anderson sem chorar. A rara sensibilidade deste diretor evidencia-se a cada momento da animação: A pequena vendedora de fósforos é um filme mudo de um expressionismo puro: sem nenhuma palavra proferida, as ações são pontilhadas apenas pelo tocante Quarteto de cordas nº. 2 em ré maior, de Aleksandr Borodin. Tudo é desenhado em tons pastéis de cores frias (pretos, azuis, cinzas e brancos), deixando as cores quentes (verdes, laranjas, vermelhos e marrons) irromperem no visual gelado e sombrio apenas quando uma luz ou um fogo é aceso e, sobretudo, a pequena vendedora risca seus fósforos.

A reconstituição de uma Rússia dostoievskiana é perfeita em cada detalhe, dos edifícios e da neve que os recobre, recordando “Noites brancas”, à cruel indiferença dos adultos que se recusam a comprar da pobre órfã um único fósforo. Em A pequena vendedora de fósforos, a arte da animação atinge um de seus grandes momentos, infelizmente sem a visibilidade que merecia nas salas de cinema.

Observação: É possível encontrar mais informações sobre o processo de criação do curta, além de artes conceituais que revelam a intensa pesquisa de estilo e o apuro visual da obra, no artigo Shedding Light on the Little Mermaid de Ron Barbagallo (em inglês).

Luiz Nazario

sábado, março 22, 2008

Happening histórico lançado em DVD


Em 1968 o Living Theatre, agremiação teatral de vanguarda capitaneada por Julian Beck e Judith Malina, retornaram aos EUA após vários anos de auto-exílio na Europa. Para comemorar esse retorno, encenaram um jogo ritualístico e teatral batizado Paradise Lost, no qual deram início ao que chamavam de criação coletiva, anulando – ao menos em proposta – a distância entre palco e platéia. A performance teve evidentes ressonâncias pelas décadas seguintes em todas as experiências teatrais de vanguarda.

Agora, as históricas apresentações da turnê de retorno do Living Theatre para a América podem ser vistas graças ao lançamento em DVD da Arthur Magazine. Trata-se de uma edição limitada na qual vemos o documentário Paradise Now: The Living Theatre in Amerika (1969), dirigido por Marty Topp e produzido por Ira Cohen, da empresa Universal Mutant, Inc., além de outros filmes como Emergency: The Living Theater (1968), dirigido por Gwen Brown, e The Permanent Revolution: Change (2007), de Will Swofford e Georg Gatsas. O DVD também é acompanhado de rico material impresso e diversos extras documentando as rupturas provocadas pelas performances do grupo.

O DVD está disponível para compra, via PayPal, neste link da revista Arthur.

Alcebiades Diniz Miguel

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Vitória de Pirro na Guerra dos Formatos


A Toshiba decidiu abandonar o formato HD DVD após perder o apoio de importantes estúdios de cinema, como a Warner Bros., controlada pela Time Warner, e de grandes grupos de varejo norte-americanos, como o Wal-Mart, o Best Buy e o grupo de locação online Netflix, que optaram pela tecnologia Blu-Ray, desenvolvida pela rival Sony. No mercado nacional já foram lançados alguns títulos pouco expressivos em Blu-Ray, e os que já provaram a novidade consideraram a imagem em Blu-Ray espetacular, muito superior à imagem em DVD. Contudo, a necessidade de um novo e caro aparelho (ao custo de R$ 4.000,00); as escassas ofertas de títulos (apenas treze no site da 2001 Vídeo); e o preço elevado do disco (R$ 99,00 cada um) sugerem que o Blu-Ray não substituirá o DVD (um mercado que movimenta US$ 24 bilhões anuais, e cujo disco sai, nas liquidações, por até R$ 11,00) nem em duas décadas, quando uma geração de discos ópticos ainda melhor que o Blu-Ray será naturalmente oferecida ao mercado. A vitória do Blu-Ray sobre o HD DVD significaria então não “o fim do risco de se optar por um equivalente do padrão Betamax no século XXI – tecnologia da Sony para videocassetes que foi derrotada pelo sistema VHS [da JVC] nos anos de 1980”, como imaginam os especialistas [1], mas talvez isso mesmo: a vitória de Pirro de uma Betamax sobre outra (cuja imagem também era superior à do VHS) no mercado robusto do DVD – o VHS do século XXI, que pode muito bem esperar mais duas décadas pelo seu novo DVD...

[1] REUTERS. Toshiba abandona HD DVD e põe fim à guerra de formatos, Terra Tecnologia, 19 fev. 2008.

Luiz Nazario

domingo, fevereiro 10, 2008

Rapsódia de Aço

O blog do importante projeto Animation Archive, pertencente à ASIFA-Hollywood com patrocínio da Walter Lantz Foundation dedica-se a digitalizar, arquivar, restaurar e preservar as pérolas da arte da animação – muitas delas ameaçadas de desaparecimento pelo descaso ou esquecimento. Dentro desse projeto de preservação do imaginário visual, temos a postagem, no blog do projeto, da animação promocional Rhapsody of Steel (1959). Realizado no estúdio de John Sutherland, foi o mais caro filme promocional produzido até então, contando com a o design de Eyvind Earle, Maurice Noble e Victor Haboush; música de Dimitri Tiomkin e animação de Irv Spence e Emery Hawkins. Algumas imagens da brochura publicada junto com o filme podem ser vistas abaixo:



- Rhapsody of Steel no Animation Archive (ao final da página, há o link para baixar a animação completa no formato Quicktime)

Alcebiades Diniz Miguel