sexta-feira, abril 24, 2009

A Sobrevivência do Pré-Cinema

Uma das certezas que temos após a leitura de A grande arte da luz e da sombra, importantíssimo estudo de Laurent Mannoni sobre as pesquisas diversas que levaram inquietações sobre luz e movimento encontradas desde os filósofos da Antiguidade ao cinematógrafo dos irmãos Lumiere, é que haviam outras possibilidades no desenvolvimento da imagem cinemática, outras direções. Contudo, essa outra história acabou não apenas interrompida, mas relegada, pelo raciocínio do progresso, ao plano de "experiências que anteciparam" o invento "que deu certo". Contudo, vez por outra, artistas, animadores e diretores de cinema aproveitam elementos do chamado pré-cinema, que demonstram como a imensa beleza desse universo nunca esteve realmente "obsoleta".

Esse é o caso de dois videoclipes realizados em épocas distintas e recuperando aspectos igualmente diferenciados do pré-cinema e do cinema primitivo. O primeiro, para a música "Tonight Tonight" (1996), do Smashing Pumpkins, dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris. Trata-se de uma recriação do filmete de George Méliès Le Voyage dans la Lune (1902), com todos os elementos originais (inclusive os efeitos especiais de explosões e perseguições, a perspectiva teatral, a colorização primitiva que tornava cada quadro uma pintura, a lua com rosto humano, etc.) reproduzidos através da moderna tecnologia de vídeo. O clipe pode ser visto aqui.





Ainda mais espetacular é o vídeo feito para a música "We Got Time", do cantor Moray McLaren, dirigido por David Wilson. Filmado diretamente da câmera, sem qualquer artifício ou efeito 3D computacional, vemos diversas vitrolas funcionando como praxinoscópios reproduzindo pequenas animações, na verdade discos que giram ininterruptamente. O foco do vídeo é o eterno ciclo de vida e morte, início e fim, magnificamente exemplificado pelas hipnóticas e misteriosas animações do pré-cinema, com seus espelhos e fendas através dos quais vemos cenas que se repetem ad infinitum. David Wilson também criou os belíssimos desenhos dos discos, curiosa idéia para criação de animações praxinoscópicas inspirada, segundo o diretor no making of, pelos discos produzidos pela gravadora Red Raven nos anos 1950, cada um deles equipado com um "carrossel" de espelhos e uma animação desenhada diretamente no selo do disco. O praxinoscópio, invenção de Charles-Émile Reynaud – um dos grandes mártires do pré-cinema, hoje quase esquecido – em 1877, recebe assim uma bela e justa homenagem com o trabalho de David Wilson, inspiração possível para redescobertas do "primitivo" ou "obsoleto" como possibilidades criativas, recriadas pela mais moderna tecnologia. (Via Motionographer).







Alcebiades Diniz Miguel

segunda-feira, abril 20, 2009

Fotografias, Desenhos e Pinturas Animados

- Um vídeo que recebeu bastante atenção da mídia digital nos últimos dias foi a animação japonesa Wolf and Pig. De fato, trata-se de uma obra de técnica única e inusitada: a animação de fotografias, captadas quadro a quadro, reveladas e depois animadas empregando a metodologia utilizadas em animação stop motion. O resultado é uma mescla de pixilation com as fotomontagens de David Hockney, autor de painéis de paisagens montados com inúmeras fotografias. A complexidade infernal do processo – provavelmente o autor teve de prever, entre outros problemas, mudanças de luz e deslocamento de veículos, pessoas e objetos em dois ambientes diferentes para criar uma animação dentro de outra – aproxima essa criação, aparentemente caseira, da magia obtida pela técnica de grandes animadores do passado (via Smelly Cat).




- Para promover sua nova televisão Cinema 21:9 TV – que, como o nome diz, segue a proporção exata das telas de cinema –, a Philips criou um site com um criativo tableaux vídeo-fotográfico de propaganda, desenvolvido pela Stink Digital e pelo diretor Adam Berg. Trata-se de uma espetacular cena de assalto cinematográfico congelada, mas permitindo a navegação e a descoberta de diversos hotspots nos quais vemos explicações em estilo making of (via Motiongrapher).

- O novo videoclip de Moby foi criado por David Lynch: uma animação com os característicos e grotescos desenhos daquele autor, que começou sua carreira cinematográfica no universo da animação (via Smelly Cat).



- No clássico curta-metragem Guernica (1950) Alain Resnais “animou”, com sua edição, planos-detalhes de pinturas, desenhos e esculturas que Picasso realizou entre 1902 e 1949, recorrendo às vozes de Jacques Pruvost e María Casares recitando um poema de Paul Éluard e à trilha musical de Guy Bernard, com o efeito de tornar a destruição de Guernica (bombardeada em 1937 pela Legião Condor cedida a Franco por Hitler) palpável através da arte. Em 2000, naquela aldeia basca, o centro de pesquisa sobre a paz Gernika Gogoratuz produziu, em colaboração com o The Heinrich Böll Stiftung, o documentário The Bombing of Gernika: The Mark of Men, com depoimentos dos sobreviventes que ainda viviam. O filme incluiu uma apresentação em animação 3D pouco sofisticada, mas efetiva, usando personagens retirados da Guernica de Picasso. Finalmente, em 2008, as experiências de “animação” de obras de arte, e em particular a Guernica de Picasso, foi radicalizada e levada à perfeição pela jovem artista alemã Lena Gieseke em A 3D Exploration of Picasso’s Guernica (basta clicar no link para ver o filme) com o uso dos softwares Maya, Shake e Photoshop, ao som de Nana, de Manuel de Falla, numa experiência fascinante de exploração da pintura cubista como que transformada em grande instalação de madeira. Através de técnicas inovadoras de “contemplação em profundidade”, detalhes antes mal percebidos da obra vêem-se subitamente realçados e re-significados pela imersão espacial do espectador-narrador na pintura-escultura virtual, proporcionada pela câmara subjetiva-objetiva em constante movimento, até sua fixação no belo enquadramento final: a flor que Picasso fez brotar da espada quebrada.

Nota: O curta de Resnais sobre Guernica foi lançado no Brasil como extra da edição em DVD de O Mistério de Picasso (Le Mystere Picasso, 1956) de Henry Georges Clouzot, pela Magnus Opus.







Alcebiades Diniz Miguel/Luiz Nazario

terça-feira, abril 14, 2009

Buñuel, Las Hurdes e Quadrinhos


O documentário surrealista Terra sem pão (Las Hurdes / Tierra sin Pan, 1932) é um dos filmes mais estranhos e ferozes da história do cinema. Em seus intensos 30 minutos vemos – como escreveu Luiz Nazario – o pesadelo da realidade sobrepondo-se ao pesadelo da imaginação, tal como este fora exercitado nos filmes anteriores de Buñuel, O cão andaluz e A idade de ouro. Entre a denúncia de uma realidade miserável – o filme foi proibido pelo governo republicano espanhol – e o exagero caricatural e imaginário, recentemente descoberto por pesquisadores em visita à região, temos o filme mais engajado de Buñuel e um modelo para vários documentários de denúncia que buscam atingir seus objetivos pelo choque de contrastes e pela abolição de qualquer detalhe pitoresco que arruine a força da mensagem.

Tendo em vista o poder subversivo de Terra sem pão, o quadrinista Fermín Solís resolveu recriar a obra no formato dos quadrinhos, ao mesmo tempo em que buscava algumas chaves para a obra na recepção do filme pela população de Las Hurdes e no processo de filmagem em si. O resultado é o álbum de quadrinhos Buñuel en el laberinto de las tortugas, editado originalmente em 2008 pela Editorial Regional Extermeña e reeditado pela Astiberri. A investigação quadrinística de traço estilizado – típico do estilo de quadrinhos europeu – parece, no mínimo, curiosa.

- Uma análise pormenorizada da obra de Buñuel aparece no capítulo "O Surrealismo no Cinema" do mais completo estudo sobre aquele "ismo" contemporâneo publicado no Brasil, o volume de ensaios O Surrealismo, organizado por Jacó Guinsburg e Sheila Leiner (editora Perspectiva).

- Terra sem pão chegou a ser lançado no Brasil, como extra na edição em DVD de Os esquecidos, que infelizmente está esgotada. Contudo, o filme pode ser visto no Youtube.







Alcebiades Diniz Miguel

domingo, março 08, 2009

Como Construir Complexidade com Imagens


Após 20 anos de tentativas, trocas de produtoras, trocas de diretores – entre eles, Terry Gillian, Darren Aronofsky e Paul Greengrass – finalmente chega aos cinemas a adaptação da HQ Watchmen, obra escrita por Alan Moore e desenhada por Dave Gibbons. De modo distinto de outras adaptações de quadrinhos, que periodicamente invadem – e que no ano 2008 o fizeram com particular intensidade – os cinemas como uma torrente de blockbusters, Watchmen é uma obra que conta com a devoção de fanboys muito parecidos aos acólitos de Sutter Cane no filme À beira da loucura (In the Mouth of Madness, 1994), de John Carpenter, que defendem a machadadas a obra de seu autor-messias contra toda e qualquer tentativa de poluição pela indústria do cinema de Hollywood. O quadrinho de Moore/Gibbons, de fato, apresenta complexidade invulgar e rara no meio em que foi produzido, tendo por isso seu espaço na lista de 100 melhores romances da revista Time, além de ser a única HQ a ganhar o prestigioso prêmio de ficção científica Nebula. Watchmen também seria influência declarada de uma infinidade de produções da indústria cultural: das séries de TV Lost e Heroes à animação Os Incríveis (The Incredibles, 2004) de Brad Bird, passando pelas constantes buscas, na indústria dos quadrinhos, por temáticas, abordagem e estruturação de tramas realmente "sérias", mais próximas daquelas do cinema ou da literatura.

Como se não bastasse o zelo fanático de seus fãs, os problemas da adaptação cinematográfica começavam pela própria abordagem da narrativa: uma visão brutal e realista dos super-heróis, que chegava ao extremo da realidade alternativa para que os desequilibrados personagens tivessem seu espaço. Portanto, uma obra “infilmável” por sua forma e por seu conteúdo, ganhando finalmente vida no momento de zênite da crise econômica mundial: investimentos em cinema são cortados e tudo o que não for sucesso garantido terá poucas chances de virar filme, ao menos enquanto não alcançarmos o nebuloso “final da crise” Nesse sentido, o desempenho comercial do filme, dirigido por Zack Snyder, é acompanhado por um ansioso ranger de dentes por todos, direta ou indiretamente envolvidos com a indústria do cinema, de jornalistas a executivos de Hollywood e analistas de mercado. Um filme ao mesmo tempo “adulto” e “blockbuster” que, por sua natureza híbrida, pode indicar possibilidades tanto sucesso quanto de fracasso no novo cenário imprevisível da insaciável crise econômica mundial.

A verdade é que – de forma semelhante ao que acontece com o filme anterior de Snyder, 300 (idem, 2006) – embora o visual do filme, decupado dos quadrinhos que serviram de storyboard da produção, seja fascinante, a história tem sérios problemas de ritmo e os atores estão acorrentados a diálogos artificiais devido à maníaca fidelidade à trama original. A violência que fascina o diretor ganhou, em Watchmen, um tom histérico, que fornece ao filme, artificialmente, uma aura de “maldito”, já que a violência da obra original era muito mais sutil. A pista da violência nos leva ao ambicioso projeto visual de Snyder, aplicado ao seu longa-metragem: os quadrinhos possuíam inúmeros truques visuais que ampliavam suas limitadas possibilidades. Assim, as tramas paralelas vão se fechando, de forma crescente, tanto no plano narrativo específico (que, em quadrinhos, usualmente é representado pelo texto nos balões e quadros explicativos) quanto no geral (o entrelaçamento das imagens e as próprias imagens), criando um curioso efeito lisérgico: há simetrias e correspondências de psicologias, enredos e mesmo de espaços gráficos, além de realidades concêntricas que vão do narrado ao real/factual e vice-versa. É uma obra que pede leitura concentrada e contemplação de suas belas ilustrações.

Snyder, para não desagradar os fãs apenas com um sangrento filme de ação, adaptou essa estrutura em camadas e círculos – o simbólico botton com a imagem sorridente e o relógio analógico, elementos centrais da trama, em formato circular. Na ambiciosa abordagem de Snyder, a história alternativa é condensada nos créditos, logo na abertura do filme, apresentados como tableaux vivants sutilmente animados, repletos de informações, referências e citações. O procedimento nada tem de novo, mas Snyder inova pelo método, dispersando as citações e referências nas bordas de cada sequência. O filme torna-se um quebra-cabeça especialmente direcionado àqueles que conheçam a trama original: uma televisão na casa de um personagem exibe a abertura da série televisiva 5ª Dimensão (The Outer Limits, 1963-1965), uma vez que Moore/Gibbons retiraram a idéia do plano maléfico arquitetado pelo vilão de sua HQ do terceiro episódio daquela série, "The Architects of Fear". Outro exemplo: na sala de vídeo do vilão, uma TV exibe trecho de Mad Max (idem, 1979), de George Miller, pois novamente um dos momentos mais climáticos da HQ derivava do violento final daquele filme. Dispersando assim detalhes reveladores mais ou menos camuflados, Snyder torna o Easter Egg uma espécie de filosofia da composição das imagens.

Contudo, a complexidade pretendida por Snyder é apenas um malabarismo imagético, um truque para convencer o espectador de que está diante de um “entretenimento inteligente”. Nesse sentido, é impossível não pensar em um explorador dos mil sentidos da imagem cinemática: o cineasta armênio Sergei Paradjanov, que convertia cada sequência de seus filmes em uma composição pictórica barroca, como no emblemático A cor da romã (Nran Gouyne, 1968), ora lançado em DVD pela Lume. Nos filmes de Paradjanov, a imagem ganha autonomia não pela força sugestiva, mas pela pura beleza, resultando em poesia cinematográfica à maneira dos filmes de Pasolini. Que a proposta de Paradjanov seja irreprodutível dentro do universo dos grandes estúdios e do rentável blockbuster é quase um axioma. Mas a idéia original de Snyder, se implementada de forma mais sistematizada, poderia alargar o espaço de sentido de cada fotograma, projetando um cinema de sentidos não mais limitados às fronteiras sempre estanques de forma e conteúdo.

- O melhor dossiê a respeito de Watchmen é o conjunto de matérias editadas pela Wired (em inglês).

Alcebiades Diniz Miguel

quinta-feira, março 05, 2009

Cidades Animadas

Paisagem urbana existencialista de Lilium Urbanus.

Poster final de Watchmen: paisagem urbana sombria e apocalíptica.

Delicado poema visual, que não cansamos de ver e rever, a animação Lilium Urbanus apresenta a metrópole como nossa segunda natureza, revelando a beleza selvagem das luzes da cidade, expressando o prazer de se viver no caos urbano. É uma visão moderna que revigora nosso amor à vida moderna, onde a cultura floresce em toda parte, com a civilização atingindo o auge de seu esplendor. Lilium Urbanus dá uma forma encantadora à visão existencialista do mundo, pois sua simbolização da metrópole é oposta à simbolização depressiva que encontramos nos animes japoneses, como Metrópolis; nas animações e filmes norte-americanos baseados em quadrinhos – caso do recente Watchmen, filme de Zack Snyder que transporta com fidelidade extrema a HQ de Alan Moore e Dave Gibbons ao meio cinemático –, incapazes de superar a visão apocalíptica do futuro urbano lançada no épico protonazista Metrópolis, de Fritz Lang; e nas animações brasileiras, que seguem o mesmo caminho regressivo da rejeição moderna da modernidade. Esse é o caso de duas recentes – e belíssimas – animações realizadas em São Paulo, a maior metrópole do Brasil: Tyger, onde a vida torpe que os homens levam na grande cidade é desestruturada por um Tigre gigantesco que percorre a Avenida Paulista, passa pelo Estádio do Pacaembu e chega triunfante ao Pico do Jaraguá, transformando a população urbana nos “animais totêmicos” que jazem em suas mesquinhas almas reprimidas; e Pajerama, onde um indiozinho da Amazônia vê-se perseguido pelo asfalto que invade a selva, juncando-a de semáforos, pontilhões e arranha-céus em crescimento avassalador, destruindo a vida selvagem e anunciando o apocalipse da “verdadeira humanidade” que se concentra na oca. Mergulhando na nostalgia do “último silvícola” e denegando os valores da vida urbana, simbolizados pela “metrópole degenerada”, a animação brasileira, hoje formalmente à altura da melhor animação internacional, não deu ainda o salto decisivo que transcende o culto ao primitivo em direção à verdadeira modernidade.








Luiz Nazario

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Um Outro Alien




Em 1992, o diretor norte-americano David Fincher lançou sua apropriação – marcada por imaginário conservador e fatalista, no qual a criatura alienígena transformava-se em metáfora viva e direta da "peste" AIDS – da ficção científica, materializada na terceira parte da franquia iniciada por Ridley Scott, Alien3 (idem, 1992). Bem mais fraca que o filme original de Scott, a continuação de Fincher seria seguida por outra, igualmente inferior, de Jean-Pierre Jeunet, que sepultaria definitivamente a franquia. A imaginativa mescla, em moldes massivos, de narrativa de terror com elementos usuais de space opera do filme original – que contava com o design erótico e mecânico de H. R. Giger – não foi desenvolvida em nenhuma das continuações, que se limitaram ao exercício burocrático de repetir os pavorosos ambientes futuristas e decadentes, como um "castelo gótico espacial", do primeiro filme.

Contudo, um outro Alien quase aconteceu, contando com um artista do gabarito de Giger. Em seu blog, o arquiteto Lebbeus Woods – discípulo de Eero Saarinen e projetista de alguns ambientes para filmes como Os 12 Macacos (Twelve Monkeys, 1995) – conta como projetou alguns ambientes para o que seria a terceira continuação do filme, batizada Alien III. O filme seria dirigido por Vincent Ward, que declinaria de sua função de diretor passando o projeto para Fincher. A mudança de diretor resultou em uma mudança de concepção visual do filme, agora centrado na sombria representação de um planeta-presídio. Na visão original de Ward, a tenente Ripley chegaria a um planeta no qual viveria uma comunidade monástica, medieval, que havia rejeitado a tecnologia moderna. Segundo Woods, a versão de Ward estaria fortemente ancorada na cenografia, o que resultaria em um filme bem mais original que a versão vista nos cinemas. Os esboços, de fato, dão conta de um gótico orgânico, absorvido apenas indiretamente por Fincher em seu filme.

- Alien Past (postagem original, no blog de Lebbeus Woods).

Alcebiades Diniz Miguel

terça-feira, janeiro 27, 2009

Novos Títulos em DVD Fora de Catálogo – Novembro 2008-Janeiro 2009

FORA DE CATÁLOGO

Distr.

007 – Com 007 só se vive duas vezes

Fox

007 Contra Goldfinger

Fox

007 – Contra o satânico Dr. No

Fox

007 – Marcado para a morte

Fox

007 – Moscou contra 007

Fox

007 – O amanhã nunca morre – DVD Simples

Fox

007 – Os diamantes são eternos – DVD Simples

Fox

007 – Somente para seus olhos

Fox

007 – Um novo dia para morrer

Fox

007 – Viva e deixe morrer - Ultimate Edition

Fox

A excêntrica família de Antonia

Weekend

A Liga Extraordinária

Fox

Akira - Edição Especial 20 Anos (Widescreen)

Focus

Amor em 5 tempos

Imagem

Cabo do medo (DVD Duplo)

Universal

Cidade das mulheres

Versátil

Cleópatra (1963) (DVD Duplo)

Fox

Coleção A glória de meu pai / O castelo de minha mãe

Versátil

Coleção Alfred Hitchcock (Warner)

Warner

Crazy - Loucos de amor

Califórnia

Demolidor - O homem sem medo - Edição Especial (DVD Duplo) + Pôster de Tecido

Fox

Desafio à corrupção (DVD Duplo)

Fox

DOCTV - O poeta é um ente que lambe as palavras e se alucina (DVD-R)

Log On

Dogville

Califórnia

Duna - Versão Original Widescreen

Versátil

Entrando numa fria maior ainda

Paramount

Eu, Robô (DVD Duplo)

Fox

Flashdance - Edição Especial para Colecionador

Paramount

Francesco

Versátil

Grease - Nos tempos da brilhantina – Rock’in Edition - Jaqueta Rosa (DVD Duplo)

Paramount

Hamlet, vingança e tragédia

Imagem

Hammy totalmente irado + Shrek

Paramount

High School Musical 2 - Versão Estendida

Walt Disney

Jornada nas estrelas - A série clássica - 1ª Temporada

Paramount

Kagemusha – A sombra de um samurai

Fox

Lara Croft – Tomb Raider – Edição Especial

Paramount

Laura (DVD Duplo)

Fox

Legalmente loira 2

Fox

Metrópolis (2001) (DVD Duplo)

Sony

Monster – Desejo assassino.

Califórnia

O Atalante

Magnus Opus

O canhoneiro do Yang-Tsé

Fox

O ébrio – Edição Comemorativa de 60 Anos

Versátil

O Homem Urso

Califórnia

O império do besteirol contra-ataca

Imagem

O mais longo dos dias – Edição de Aniversário (DVD Duplo)

Fox

O mercador de Veneza

Califórnia

O poderoso chefão – The Coppola Restoration

Paramount

Os dez mandamentos (DVD Duplo)

Paramount

Paisà

Versátil

Punk Attitude (DVD Duplo)

Focus

Seleção Diretores: Woody Allen

Fox

Tora! Tora! Tora!

Fox

Um peixe chamado Wanda

Fox

Vítimas da tormenta

Versátil

Voando alto

Imagem


Luiz Nazario

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Construindo Memórias


A animação, desde seus distantes primórdios, sempre transmitiu tanto aos seus criadores quanto a seus espectadores uma curiosa sensação de liberdade diante do pesado mundo factual e prosaico, presente em outras formas de audiovisual. Assim, diante da crise de legitimidade de documentos em um mundo digitalizado, no qual informações reais mesclam-se com interpretações pessoais e pura e simples invenção que se pretende verdade verificável, a forma da animação surge como possibilidade de expressão subjetiva, mas historicamente válida, de pequenas e grandes tragédias e demais tétricos eventos históricos. Nada de novo no campo da possibilidade de representação, uma vez que a literatura, por exemplo, já comportava essa possibilidade; a diferença crucial ocorreu em outro campo de possibilidade: o da leitura e interpretação. Assim, subjetivando e restringindo o momento histórico sem ampliar a multidão de vozes que o caracterizam, a Arte, repentinamente, torna-se parceira da barbárie que, em primeiro momento, pretendia denunciar.

Talvez seja essa a grande encruzilhada na qual o filme de animação israelense Waltz With Bashir (2008) de Ari Folman se encontrou desde sua produção inicial. A animação causou frisson mundial, ganhando diversos prêmios em Israel e uma indicação para a Palma de Ouro em Cannes e uma provável indicação ao Oscar de melhor longa de animação, caso em que concorreria com filmes de grandes produtoras e imenso sucesso, como Wall-E (2008), da Pixar. Muitos críticos estabeleceram imediatos vínculos com a animação autobiográfica proveniente do Oriente Médio do ano passado, Persépolis (Persepolis, 2007) de Vincent Parronaud e Marjane Satrapi, apresentando as memórias da autora/protagonista e de sua infância em um Irã nos primórdios da Revolução Fundamentalista Islâmica. A diferença é que a visão extremamente subjetiva de Marjane Satrapi situa-se na esfera da vida cotidiana adestrada pelo totalitarismo integrista. Folman parte de um ponto muito mais complexo: a realidade da guerra e do esforço desesperado do Estado de Israel em sobreviver (diretamente); o resgate doloroso da memória, especialmente as terríveis e traumáticas imagens de atrocidade, que o trauma esconde nos recantos mais profundos da mente, embaralhados (indiretamente). Waltz with Bashir narra, a partir dos diversos pontos de vista de soldados israelenses, os acontecimentos no Líbano em 1982, ano da invasão daquele país por Israel, culminando com o massacre dos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, realizado pela falange cristã maronita. A subjetividade é total, lembrando a técnica de construção de documentário empregada no filme Corações e Mentes (Heart and Minds, 1974), de Peter Davis. Também é constante a parcialidade da abordagem: não sabemos bem quais as motivações de palestinos e libaneses, ou qual o significado da guerra. Talvez, o autor parta da idéia de que a guerra é um fenômeno irracional ou mesmo gratuito, uma arbitrariedade ordenada por autoridades despóticas (sempre israelenses). A ação, militar ou terrorista, de palestinos ou libaneses termina aparentemente como um gesto de defesa; a obra de suposto pacifismo termina por absolver um dos lados do conflito, estabelecendo uma crítica unilateral. A democracia em Israel permite essa liberalidade, mas a verdade histórica não se beneficia de tal abordagem.

Desde já, o tema favoreceria uma grande obra estética que, contudo, não acontece. A questão central do filme termina irresolvida: a memória instrospectiva acaba por ser resgatada, revelando imagens em vídeo e fotografia do massacre de Sabra e Chatila, evento no qual o autor estaria presente. Saltamos da rememoração individual para o registro coletivo, factual, sem qualquer aviso ou nuance. Tal salto é revelador de um projeto estético e também político de equivalência entre instâncias, ao menos em um dos lados, o israelense. A crítica dos erros políticos, dos conflitos desastrosos e das falhas militares do Estado de Israel é atividade necessária, imprescindível, mas culpabilizar todo o país, alinhavando toda e qualquer ação militar a "crime de guerra", direta ou indiretamente, é caluniador e injusto. Papel ao qual Waltz With Bashir, infelizmente, se presta.





Alcebiades Diniz Miguel